Boletim de Conjuntura

Análise de Conjuntura da Indústria.

Rodolfo Nicolay e Mariana Ravizzini Bagno
Orientadora: Lérida Maria Lago Povoleri**

O último trimestre de 2008 foi marcado por uma queda da produção industrial na economia brasileira. Esta queda foi reflexo da crise mundial iniciada nos EUA a partir da desvalorização dos ativos ligados à dívida imobiliária do subprime, deixando muitas instituições financeiras em dificuldade e consequentemente, reduzindo o crédito na economia dado o cenário de alta incerteza gerado. Os reflexos das incertezas são observados no índice de confiança do empresário industrial (doravante ICEI), que mostra uma queda brusca nas expectativas no segundo e terceiro trimestres de 2008.

Gráfico 1: Índice de Confiança do Empresário Industrial

Fonte: CNI

Segundo o ICEI, após um primeiro e um segundo trimestre de expectativas pessimistas no ano de 2009, a confiança do empresário retornou, o que é refletido pela recuperação da indústria no segundo trimestre de 2009. O otimismo reflete em parte a dispersão dos efeitos da crise, e em parte os bons resultados apresentados pela demanda interna, que evitou um maior aprofundamento da crise no Brasil.
Com o retorno de expectativas positivas, a recuperação se torna mais sólida, o que é refletido na utilização da capacidade instalada da indústria, que após ficar estacionada, próxima ao nível mínimo atingindo após a crise no primeiro trimestre de 2009, começa a se recuperar de forma relevante no segundo trimestre de 2009, o que se confirma no terceiro trimestre de 2009 atingindo um patamar superior às expectativas iniciais pré-crise no quarto trimestre de 2009.

Gráfico 2: Utilização da Capacidade Instalada

Fonte: FGV

Apesar da recuperação percebida a partir do mês de janeiro de 2009 em relação à utilização da capacidade instalada, se intensificando a partir do mês de abril de 2009, a utilização da capacidade instalada continua consideravelmente abaixo do nível “pré-crise”. Após o nível mínimo de 76,7% em janeiro de 2009, os números relativos à indústria geral se recuperaram consideravelmente, atingindo 79,8% de utilização da capacidade instalada em julho de 2009 e 84,5% em novembro de 2009, atingindo seu valor máximo do ano, ainda sem conseguir atingir o patamar dos números pré-crise. No mesmo mês de outubro de 2008, a indústria apresentava 86,3% e em março de 2010 aprentou 82,3% o que mostra que o impacto da crise ainda está presente na economia, contudo os níveis atuais da economia estão próximos dos níveis do “pré-crise”.
O pior desempenho nos dois primeiros trimestres de 2009 é observado na indústria de bens de capital. Como este ramo do setor indústrial está ligada à execução de investimentos e estes dependem crucialmente das expectativas de expansão das vendas, esta indústria tende a ser a última a se recuperar, pois depende da recuperação de todas os outros ramos. Após atingir o nível mínimo de 73,3% em janeiro de 2009, a recuperação deste setor é contida e após quatro meses a indústria de bens de capital atingiu apenas 74% de utilização da capacidade instalada. Em relação ao mesmo mês de 2008, a queda chega á 14,5%, dado a utilização de 88,5% em abril de 2008.
A indústria de bens de consumo foi a primeira a evidenciar os impactos da crise no Brasil, atingindo ainda em dezembro de 2008 77,7% de utilização da capacidade instilada, chegando ao seu nível mínimo de 76,6 em janeiro de 2009.
Contudo, da mesma forma que esta indústria puxou a queda, também mostrou um movimento inicial de recuperação em conjunto com a indústria de transformação. Sendo que, na comparação entre abril de 2009 e o mesmo mês do ano de 2008, a indústria de bens de consumo é a que apresenta a menor diferença, apenas 5,9%.

Gráfico 3: Índice Quantum de exportação (média de 2006 = 100)

Fonte: Funcex

Em relação às exportações, a indústria apresenta uma pequena recuperação, puxada principalmente por bens intermediários e bens de consumo não duráveis. Os setores que tiveram a maior queda nas exportações foram o de bens de capitais e o de consumo de duráveis.
O setor de bens de consumo não duráveis, por ter a característica de não depender muito do crédito, quase não sofreu redução na quantidade exportada. É possível observar no gráfico 3 que após uma pequena queda no primeiro trimestre de 2009, a quantidade exportada já se encontra próxima aos níveis do “pré-crise”. Já o setor de bens intermediários, teve uma queda intensa no primeiro trimestre de 2009, mais sua recuperação foi rápida e o setor também já se encontra próximo aos níveis do “pré-crise”. Esta queda abrupta no primeiro trimestre de 2009 pode ser reflexo de efeitos sazonais, pois no mesmo período do ano anterior também foi registrada uma queda das exportações de bens intermediários.
Os setores que sofreram maior queda são aqueles que mais necessitam de crédito. Com a redução global do crédito, tanto os investimentos quanto o consumo dos bens duráveis sofreram contração em grande parte do mundo, o que repercute nas nossas exportações. O retorno aos níveis do “pré-crise” depende diretamente do retorno do crédito e da expansão da renda mundial.
Um dado importante para analisar o desempenho da indústria frente o resultado das exportações de produtos industrializados é o destino da produção. Como será apresentado a seguir, a queda das exportações gera dois efeitos, um direto e um indireto. O direto age sobre setores os quais os produtos passam a ser exportados em menor quantidade, enquanto o indireto age sobre os setores que produzem insumos para aqueles que sofreram redução nas exportações.

Tabela 1 – Desempenho da indústria e destino de produção

Fonte: BNDES1 (Com base em dados do IBGE, Secex, e Funcex)

Como pode ser observado, os setores que sofreram maior queda no período entre setembro de 2008 e o final do primeiro trimestre de 2009 foram eletrônica e comunicação com queda de 38%, máquinas e equipamentos com queda de 37%, materiais elétricos com queda de 37%, metalurgia básica com queda de 31% e veículos com queda de 29%. Contudo, nem todos os setores apresentados possuíram quedas consideráveis na exportação; metalurgia básica e materiais elétricos tiveram uma queda nas exportações relativamente baixa à sua queda na produção, contudo, como fornecem insumos para diversas indústrias, acabam sofrendo o efeito indireto da queda das exportações de outras indústrias.

Tabela 2: Crescimento da indústria (Base: média de 2002 = 100)

Fonte: IBGE

A indústria no final do segundo trimestre de 2009 ainda apresenta um nível consideravelmente abaixo dos níveis apresentados em setembro de 2008, antes da instalação da crise econômica. Contudo, em relação ao trimestre anterior, é possível visualizar uma melhora na maioria dos setores.
O resultado geral da indústria mostra um aumento de 3,6% no segundo trimestre de 2009 em relação ao primeiro trimestre do mesmo ano e no primeiro trimestre de 2010 também apresenta melhora de 5,30% em relação a dezembro de 2009. A indústria extrativa apresenta um crescimento de 3,13% e 4,32% nestes mesmos períodos enquanto a indústria de transformação apresenta uma melhora de 2,7% e de 4,83%.
Os setores que melhor responderam no segundo trimestre de 2009 foram o de veículos automotores que apresentou um crescimento de 12,24% em relação ao trimestre anterior respondendo aos incentivos fiscais da redução do IPI, nesse contexto, em março de 2010, último mês da redução do IPI a indústria apresentou um crescimento de 7,42% em relação a dezembro de 2009. Em geral, os setores que tiveram incentivos fiscais apresentaram uma recuperação considerável, máquinas, aparelhos e materiais elétricos teve uma melhora de 8,01% e material eletrônico, aparelhos e equipamentos de comunicação apresentou uma melhora de 6,55%. Outros setores como metalurgia básica, produtos químicos e farmacêuticos também tiveram um bom resultado no segundo trimestre de 2009. Essa expectativa de melhora se confirmou nos itens analisados a exceção do material eletrônico, aparelhos e equipamentos de comunicação que teve uma queda de 4,59% de setembro de 2009 para março de 2010.
Dentre os setores que não apresentaram bons resultados no segundo trimestre se encontram máquinas e equipamentos que apresentou uma queda de 2,21% no segundo trimestre de 2009 em comparação ao trimestre anterior. Esta queda reflete o fato de que o investimento normalmente é o último a responder, pois envolvem decisões de longo prazo com altos riscos inerentes, fato que se confirma, pois em comparação com setembro de 2009 esse item teve aumento de 18,2% em março de 2010.
Os outros setores que apresentaram queda considerável no segundo trimestre foram o de equipamentos médicos e de transportes, ambos fortemente ligados à execução de investimentos, mas que em 2010 já estão se recuperando.
Contudo, devemos também prestar atenção em um fenômeno que vem sendo observado nos últimos anos, que é a expansão da China nos mercados mundiais.
Apesar, da boa recuperação da indústria que pode ser observada nos dados apresentados acima, a China, país que apresenta um ritmo de crescimento altíssimo e vem conquistando mercados em todo mundo, representa, de fato, uma ameaça às exportações brasileira. Uma prova concreta deste fenômeno pode ser apresentada pela evolução dos preços de alguns produtos chineses em reais, o que mostra que além de estar tomando mercados exportadores brasileiros, a China também tem invadido o próprio mercado brasileiro inundando nossa economia com seus produtos.
Este processo de entrada de produtos chineses em nossa economia pode significar uma desindustrialização em alguns setores. Como os preços dos produtos chineses vêm, cada vez mais, barateando em relação aos produtos nacionais, os consumidores e firmas preferirão consumir produtos chineses, levando a demissões e falências em alguns setores.
Existem alguns elementos para a falta de competitividade da indústria brasileira frente os produtos chineses. O primeiro que pode ser sublinhado é a sobrevalorização do câmbio, que encarece os produtos brasileiros e barateia os produtos importados, gerando maior vantagem para China. Outro problema são os encargos: os produtos chineses são submetidos à menores encargos e taxações, fazendo com que seus produtos tornem-se mais baratos.


Fonte2: Secex e IBGE *preço médio em R$/quantidade. Elaboração: Fiesp

Anúncios

Boletim de Conjuntura

CONJUNTURA MONETÁRIA

Fernando Cruz, Gabriel Pires e Cyntia Santos
Orientador: Marcelo Carcanholo

Crédito

O canal de crédito é apontado por muitos como principal meio por onde a crise econômica, estourada em setembro de 2008 com a quebra do Lehman Brothers, transmitiu-se para o Brasil, pois é visível perturbações na trajetória expansiva do crédito no início de 2009. Com sua recuperação e crescente expansão, junto ao restante da economia brasileira ao longo do ano 2009, é possível esperar a continuidade dessa trajetória de expansão.

Gráfico 1

As sucessivas quedas da taxa referencial de juros (SELIC), nos dois primeiros trimestres de 2009, reduziram o custo do crédito, contribuindo com a manutenção de demanda interna diante de um cenário internacional rigoroso para a balança comercial.
Ao mesmo tempo em que os juros caíam, as melhorias no mercado de trabalho e, por conseguinte, na confiança do consumidor sugeriram ter contribuído para impulsionar a demanda por crédito.
Os gráficos II e III expressam os resultados para as operações de crédito com recursos livres e direcionados, desagregando os dados para melhor análise do exposto acima.

Gráfico 2

Gráfico 3

As operações de crédito com recursos livres, formalizadas com taxas de juros livremente pactuadas entre mutuários e instituições financeiras, apresentaram resultados um pouco distintos, se considerarmos a desagregação em pessoas físicas e jurídicas. Podemos perceber certa estagnação nas operações para pessoa jurídica a partir de fevereiro de 2009, saindo de R$ 462.988 milhões para R$ 484.651 milhões em agosto do mesmo ano. Por outro lado, as operações com pessoas físicas apresentaram melhorias desde dezembro de 2008, explicadas pelos fatores relacionados à demanda de crédito citados no parágrafo anterior, passando de R$ 399.192 milhões em janeiro de 2009 à R$ 469.899 milhões em dezembro de 2009.
Já a análise das operações com recursos direcionados – realizadas com taxas ou recursos pré-estabelecidos em normas governamentais e destinadas aos setores rural, habitacional e de infra-estrutura – permite-nos observar o papel do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) nos resultados do crédito em 2009. Apesar de sua desaceleração na entrada do ano, tendo em vista a queda na demanda por crédito gerada pela crise, os desembolsos do BNDES tornaram a aumentar ao longo do ano de 2009, embora sua participação no total dos recursos direcionados se manteve praticamente estável devido ao crescimento dos outros componentes. É importante destacar também as operações de crédito com recursos direcionados para a habitação que passaram de R$60.877 em janeiro para R$ 87.375 milhões em dezembro e, como pode ser observado no Gráfico II, ultrapassaram o valor direcionado à agricultura no último trimestre de 2009.
Nesse contexto de recuperação do crédito no país é importante ressaltar o papel das instituições públicas, provendo crédito expansivo, enquanto o crédito privado nacional via-se com crescimento cada vez mais reduzido e o estrangeiro apresentava-se praticamente congelado entre 8,2 e 8,5% do PIB ao longo do ano de 2009. O Gráfico IV ilustra o movimento expansivo das Instituições Públicas que, após crescimento ininterrupto, ultrapassa o crédito provido por Instituições Privadas Nacionais em novembro de 2009.

Gráfico 4

Os dados de spread para pessoa física, apesar de ainda exorbitantes, vêm declinando desde janeiro de 2009 após alcançar um pico de 45% em dezembro de 2008. A partir de abril, o spread para pessoa física voltou a alcançar números no mesmo patamar pré-crise e continuou em trajetória de queda. Em janeiro de 2009, o spread estava em 43,5% e terminou o ano em 31,6%.
Já o quadro para pessoa jurídica aponta maior resistência à queda do spread. A redução mais acentuada dos custos de captação não é acompanhada pelo ritmo de queda das taxas de aplicação, enrijecendo a queda o spread que terminou o ano de 2009 em nível muito mais elevado que em 2008. O ápice do spread foi alcançado em fevereiro de 2009 cujo valor foi de 19% e, embora o spread de pessoa jurídica esteja em trajetória de queda, ainda não retornou a níveis pré-crise.

Gráfico 5

Gráfico 6

Política Monetária

Seguindo seu compromisso com o regime de metas de inflação, o recuo da demanda sofrido no período mais agudo da crise levou o Banco Central do Brasil à redução dos juros básicos da economia, a partir de janeiro deste ano. Inicialmente as reduções da taxa básica foram mais acentuadas, mas, a partir de Julho, ela foi estabilizada em 8,75%.

Inflação

A inflação se eleva a partir do segundo semestre de 2007. Pressões inflacionárias mais intensas no primeiro quadrimestre de 2008, originadas pela elevação dos preços das commodities agrícolas, minerais e do petróleo levaram a inflação a se acelerar atingindo 6,41% em outubro. Havia, também, um excesso de demanda sendo preenchido pelo aumento das importações no primeiro semestre de 2008. Com isso, o Banco Central iniciou a elevação da taxa Selic em abril daquele ano.
Com o agravamento da crise, em setembro de 2008, houve uma desvalorização cambial. Devido a esse cenário favorável ao aumento da inflação, o Banco Central justifica a manutenção da taxa de juros básica da economia (Selic) em patamares elevados após setembro, apesar da queda dos preços do petróleo e das commodities agrominerais.
Ademais, por causa dos efeitos da crise (recuo do preço das commodities e desaceleração da economia doméstica), a inflação em doze meses medida pela variação do IPCA, foi recuando desde então. Encerrou o ano de 2008 em 5,90% e, ao atingir 4,36% em agosto de 2009, deslocou-se para a banda inferior da meta de inflação. Logo, a desaceleração do IPCA mostra que esses efeitos citados acima mais que compensaram o potencial inflacionário contido na desvalorização cambial, segundo o corpo técnico do Banco Central.
De acordo com o gráfico abaixo, as pressões inflacionárias decorrentes do grupo alimentos e bebidas foram arrefecidas, recuando quase 13 pontos percentuais, no acumulado em doze meses, desde junho de 2008 (ápice da inflação neste item).

Gráfico 7

Com isso, percebemos que a inflação em 2009 apresentou um perfil diferente da verificada em 2008, já que a elevação dos preços dos alimentos foi à responsável pela maior parte da variação do IPCA nesse ano.
Na comparação entre os itens monitorados e livres, os primeiros contemplam variações de preços em valores menores do que os últimos até setembro de 2009. Isso ocorria desde maio de 2007 como podemos afirmar no gráfico abaixo:

Gráfico 8

Além disso, os preços monitorados têm descrito trajetória de alta e os preços livres de baixa, com este sofrendo uma pequena aceleração em dezembro de 2009. O movimento de alta decorre ainda dos contratos reajustados pelo IGP-M (tais como aluguel, serviços de telecomunicações, energia, etc), índice que registrou forte aceleração durante todo o ano de 2008. Já em 2009, o mesmo índice recua fortemente, apresentando até deflação no terceiro trimestre do ano. Logo, a expectativa é que exista desinflações nos itens monitorados à medida que os efeitos do recuo do IGP-M forem sentidos.
Outrossim, a inflação medida pelo IPCA alcançou o patamar de 4,31%, em 2009, invertendo a sua trajetória de desinflações desde novembro. No entanto, ela continuou abaixo do centro da meta e registrou redução em relação aos 5,90% observados no ano de 2008. Essa redução tem a ver com os efeitos da crise e com a valorização cambial.
Em suma, a inflação segue na meta e as expectativas para 2010 são de aceleração, pois temos um cenário de retomada do nível de atividade e, ao longo de 2009, houve diminuição do hiato do produto através do aumento do grau de utilização da capacidade produtiva. As expectativas se confirmarão dependendo do grau de investimento realizado na economia ao longo de 2010, e se o real continuar apreciado pode gerar uma compensação entre potenciais pressões inflacionárias.

Boletim de Conjuntura

ANÁLISE DA VARIAÇÃO DOS PRINCIPAIS COMPONENTES DO PIB EM 2009

Thiago Marino Leão Cardoso
Orientador: Marcelo Dias Carcanholo

Apesar das perspectivas otimistas apresentadas ao início do ano de 2009, pelo Ministério da Fazenda (1,5%), Banco Central (1,2%), IPEA (1,2%), Febraban (2,56%) e pelo Relatório Focus (2,4%), com relação à superação da crise mundial por parte da economia brasileira, foi verificada razoável estabilidade do PIB brasileiro acumulado de 2009 em relação a 2008.
Procuraremos, a seguir, analisar diferentes fatores que contribuíram para tais resultados e ressaltar possíveis panoramas futuros com base nas contas nacionais de 2009.
Após dois trimestres seguidos de recuo em relação aos trimestres anteriores, o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro manteve uma dinâmica de recuperação acelerada a partir do 2º trimestre de 2009. Tal crescimento, contudo, não foi suficiente para permitir que o país encerrasse o ano com um resultado positivo e, muito menos, que alcançasse às estimativas otimistas apresentadas por diversas analises (como do Ministério da Fazenda, de alguns analistas de mercado e outros) no início de 2009.
O recuo de 0,2% do PIB em 2009 demonstra que o país não foi capaz, como se imaginava, de se destacar entre as demais economias mundiais no momento pós-crise, ficando apenas 0,4% acima da taxa média de crescimento do PIB mundial enquanto economias como Argentina e Austrália conseguiram resultados positivos, crescendo, respectivamente, 0,9% e 1,3% em 2009.
Contudo, a seqüência de bons desempenhos nos últimos trimestres, particularmente a partir do 2º, permite a projeção de melhores resultados para a economia brasileira, de acordo com as previsões do Fundo Monetário Internacional (FMI) que indicam crescimento entre 4% e 5,5% para o Brasil nos próximos anos.

Gráfico 1

Gráfico 2

Uma vez mantido o presente ritmo de recuperação, tanto brasileiro quanto mundial, é possível que o Brasil apresente um razoável crescimento no ano de 2010 e mesmo a retomada das taxas de crescimento pré-crise, como parece afirmar as previsões do FMI ao indicar uma taxa de crescimento do PIB brasileiro no valor de 5,5% em 2010. Contudo, deve-se ressaltar que tal perspectiva depende tanto de fatores exógenos quanto de outras variáveis que serão analisadas posteriormente nesta seção.

Análise do PIB: Ótica da Oferta
A análise da taxa acumulada dos componentes de oferta do PIB de 2009 não apresenta muitos resultados positivos. Enquanto o Setor de Serviços apresentou uma expansão de 2,6% no acumulado (dessazonalizado) do ano, tanto o Setor Agropecuário quanto a Indústria apresentaram recuos de 5,13% e 5,51%, respectivamente.
Tal recuo apresentado pela Indústria deve-se, principalmente, aos resultados do sub-setor de transformação (-7,27%) e da construção civil (-6,31%) no agregado anual. Contudo, devemos ressaltar que ambos os sub-setores apresentaram melhoras em relação aos trimestres anteriores a partir do 2º trimestre de 2009 e que, desde então, vêm apresentando uma dinâmica de crescimento.
Já o desempenho dos Serviços reflete o bom desempenho anual dos sub-setores de serviços de informação e financeiros que superaram o mau desempenho do comércio e do transporte e armazenamento. O Setor Agropecuário, contudo, apresentou variação negativa entre todos os trimestres do ano.

Gráfico 3

Gráfico 4

Gráfico 5

Gráfico 6

Assim, podemos perceber que, com exceção do Setor Agropecuário, todos os setores produtivos vêm apresentando, de forma geral, tendência à retomada do crescimento desde o 2º trimestre de 2009, influenciando o PIB de maneira geral e sendo, desta forma, responsáveis, também, por sua recuperação.
Podemos então, mantidas as taxas de recuperação do Setor Industrial e, também, as ressalvas com relação à recuperação externa e desconsiderando possíveis problemas internos feitas ao final do item anterior, antever uma recuperação do PIB brasileiro para os próximos trimestres de 2010 através do retorno da atividade industrial.

Análise do PIB: Ótica da Demanda
Ao analisarmos a taxa acumulada dessazonalizada dos componentes de Demanda do PIB no ano de 2009, podemos observar um crescimento razoável do Consumo das Famílias e do Governo (4,06% e 3,67%, respectivamente) em contraposição ao forte recuo da Formação Bruta de Capital Fixo (-9,98%). As Exportações e Importações também apresentaram recuos neste índice (de -10,35% e -11,54%, respectivamente).
Contudo, se analisarmos a variação destes componentes em relação ao trimestre anterior, perceberemos que, assim como o Setor Industrial, a Formação Bruta de Capital Fixo, as Exportações e as Importações vêm apresentando crescimento desde o 2º trimestre de 2009. Mesmo assim, deve-se chamar a atenção para o maior crescimento das Importações em relação às Exportações, o que vêm acarretando déficits na balança comercial e ameaça a recuperação da economia.

Gráfico 7

Gráfico 8

Com base nestes dados, podemos destacar a manutenção do Consumo das Famílias e dos Gastos do Governo como de grande importância para a retomada da atividade econômica brasileira e dos investimentos. E, da mesma forma, podemos destacar o crescimento da Formação Bruta de Capital Fixo como indicador da retomada da atividade econômica e do crescimento, assim como de um possível otimismo quanto ao futuro por parte dos empresários.
Contudo, devemos ressaltar, também, neste cenário de recuperação da atividade produtiva, o rápido crescimento das Importações, acima da Formação Bruta de Capital Fixo e, principalmente, das Exportações, como potencial complicador e fator restritivo a tal processo.
A forte entrada de bens importados, estimulada pela valorização cambial, tende a ameaçar a recuperação do setor produtivo interno uma vez que seu crescimento se dá de forma superior aos investimentos em capital fixo (variável também ameaçada por uma provável elevação na taxa de juros brasileira). Da mesma forma, o déficit em transações correntes pode vir a comprometer as contas externas e tornar a economia brasileira ainda mais vulnerável a oscilações do fluxo internacional de capital.

Análise da Composição do PIB

Composição do PIB: Ótica da Oferta
Comparando a participação média dos componentes de Oferta no PIB, veremos que o Setor de Serviços ampliou sua participação em 1,8 pontos percentuais (de 66,76% em 2008 para 68,56% em 2009), o que ressalta seu desempenho positivo durante o ano.
Já o Setor Agropecuário (com participação anual média de 6,10%) também teve uma ampliação em sua participação uma vez que o Setor Industrial (cuja média foi de 25,35% do PIB) reduziu sua participação média em, aproximadamente, 1,95 pontos percentuais em relação a 2008. Contudo, podemos observar uma contínua recuperação da participação do Setor Industrial, principalmente sobre a participação da Agropecuária, a partir do 2º trimestre.

Gráfico 9

Composição do PIB: Ótica da Demanda
Analisando a Composição do PIB através dos componentes de demanda observaremos que o Consumo das Famílias manteve-se a frente dos demais com uma participação anual média de 62,80% do PIB (um aumento de 2,45 em relação a 2008). O Consumo do Governo também ampliou sua participação no PIB de 19,54%, em 2008, para 20,75%, em 2009.
Todos os demais componentes, por outro lado, apresentaram variação anual média negativa. Os Investimentos (Formação Bruta de Capital Fixo e Variação de Estoques) caiu 3,41 pontos percentuais devido ao recuo de ambos seus componentes; enquanto a Balança Comercial apresentou-se como fator negativo ao PIB (representando uma participação média equivalente a -0,07% do PIB) devido à superação das Exportações pelas Importações a partir do 3º trimestre de 2009, apesar de ambos terem reduzido sua participação total no PIB.

Gráfico 10

Conclusões

Fomos capazes de observar que, apesar do fraco resultado e do leve recuo (-0,2%) apresentado pelo PIB brasileiro em 2009, a economia vem apresentando melhores resultados a partir do 2º trimestre do ano.
Particularmente, destacamos que o Setor Industrial e a Formação Bruta de Capital Fixo têm demonstrado tal tendência de crescimento alcançando, no último trimestre, taxas de variação na ordem de 3,99% e 6,57%, respectivamente. Estes resultados expressam a possibilidade de reaquecimento da economia para o ano de 2010.
Porém, também fomos capazes de perceber a preocupante situação do setor externo que se verifica desde o 3º trimestre de 2009 quando as Importações superaram as Exportações em valor nominal. Tal situação de desequilíbrio na balança comercial pode ser encarada, entre outros possíveis fatores, como conseqüência da manutenção de uma taxa de câmbio valorizada e tende a fragilizar a economia tornando-a mais vulnerável.
Devemos ressaltar, também, que uma possível elevação na taxa básica de juros, esperada para o decorrer do ano de 2010, tenderá a agravar tal situação externa, permitindo a manutenção de uma taxa de câmbio valorizada, e poderá frear a retomada da atividade interna nos próximos trimestres.

Crise da Grécia

Resenha sobre a crise da Grécia

A União Européia inaugurou um novo grau de integração econômica e política cujas bases eram de cooperação e não, como em muitos acordos entre nações, de obtenção ou de manutenção de interesses específicos. A cooperação entre as nações membro permitiria obtenção de considerável poder de barganha para dialogar com outras nações e blocos influentes no globo. O objetivo da União Européia era melhora nas condições de vida, progresso econômico e social cuja criação do próprio bloco e a adoção da moeda única eram apenas etapas em prol de alcançar uma integração plena entre as nações membro.
Com o passar dos anos, as nações da União Européia passaram a receber novos membros mediante a adoção de rígidas regras para serem aceitos como integrantes. Uma vez aceitos como membros, tais países usufruíram do benefício de livre circulação de pessoas, mercadorias e de uma moeda única. Vale destacar que os países da zona do euro passaram a pagar menos taxas de juro pelos empréstimos que contraíam, pois a moeda única era internacionalmente reconhecida, de alta liquidez e as economias dos países membros tinham como objetivo manter baixas as suas taxas de inflação.
A crise norte-americana que, após a quebra no Lehman Brothers, contaminou outros países, além de expor a fragilidade financeira de instituições, consideradas sólidas, envolveu diversos Bancos da zona do euro. Como solução emergencial para conter a queda da atividade econômica, as nações realizaram políticas keynesianas, ou seja, de expansão dos gastos públicos para estimular e, em alguns casos, reduzir a tendência de queda do nível de atividade.
A Grécia, como outros países, expandiu seus gastos públicos a fim de atuar contra a crise, que se alastrou pelo sistema financeiro global, em um contexto em que as receitas também caiam afetadas pela queda do produto, ou seja, a tendência de queda do produto, acompanhada pela tendência de queda da receita governamental, foi sustada pelo aumento do gasto público. Tal medida emergencial não foi contestada por outras nações, pois era consenso, entre governantes, que eram medidas necessárias. O problema foi à conseqüência da expansão irresponsável dos gastos ao longo dos últimos anos. Por exemplo, nas Olimpíadas de 2004 os gastos ultrapassaram em muito o previsto o que contribuiu para a expansão da dívida pública. O descontrole fiscal para atenuar a crise somada à queda das receitas explicitou a incapacidade grega de rolar a gigantesca e crescente dívida pública.
O ano de 2010 terminou com a Grécia além de certos limites estipulados pelo Tratado de Maastricht. Entre eles está o déficit público de mais de 12% que, segundo o Tratado, não deveria ultrapassar 3% e a relação dívida/ PIB em mais de 100% enquanto o Tratado não permite mais do que 60%. Percebe-se até que ponto o desequilíbrio orçamentário grego alcançou. Entretanto, não se deve atribuir a situação atual do país única e exclusivamente à crise econômica de 2008, mas há políticas públicas de expansão dos gastos ao longo de muitos anos.
A dívida pública grega atingiu enormes proporções, porém não é tal magnitude a maior razão de preocupação dos credores. Por exemplo, a dívida pública do Japão alcançou 200% do PIB sem o país entrar em nenhuma crise econômica. Deve-se compreender que a divida pública é uma realidade a todos os países existentes e que ela é impagável. Por esta razão, se pagar a dívida não é possível, então é necessário refinanciá-la regularmente, ou seja, fazer novas dívidas para pagar as dívidas mais antigas. Tal fato não deveria representar um problema, pois o Estado detém monopólio da emissão de moeda e é, por esta razão, o melhor devedor. Munido da capacidade de emissão, o Estado só poderia quebrar se a economia do país estiver destruída.
A Grécia, por ser um membro da União Européia, obteve vantagens ao adotar o euro como moeda, mas, ao fazê-lo, abdicou do controle da política monetária. O Banco Central Europeu é quem detém o controle da política monetária do bloco e, segundo os objetivos dos membros, os governos deveriam ter um razoável equilíbrio orçamentário, de modo a não obter déficits orçamentários superiores a 3% do PIB e não ultrapassar em 60% a relação Dívida/PIB.
Essa impossibilidade de utilizar a Política Monetária é crucial para compreender a atual situação do país. A Grécia claramente ultrapassou os limites de responsabilidade fiscal do Tratado de Maastricht e, na condição de país membro, não pode emitir ou desvalorizar sua moeda para tentar melhorar sua situação econômica. A respeito da restrição ao uso de Política Monetária, é importante entender que a dívida grega é em euro e que o país não realiza emissão dessa moeda. Uma das soluções para o impasse financeiro seria emitir mais títulos para substituir as dívidas antigas, mas os títulos da dívida grega passaram a ser considerados de crescentes riscos o que tornou também crescente a exigência de maiores juros. Se o país aceitasse pagar os maiores juros como prêmio de risco, a situação da dívida iria ter um caráter explosivo o que agravaria ainda mais a frágil situação das finanças públicas.
A alternativa à Política Monetária como solução à crise grega seria recorrer à Política Fiscal. Por esta razão, o governo anunciou medidas significativas para reduzir os gastos públicos e, conseqüentemente, o déficit público nos próximos anos. Porém, dada a dimensão do déficit são necessárias medidas radicais de contenção do gasto público. Nos últimos meses, o Governo grego anunciou aumento de impostos, redução de salários, aumento da idade mínima para aposentadoria, entre outras medidas. A repercussão das medidas tem afetado significativamente os cidadãos gregos que, inconformados com os sacrifícios necessários, tem realizado greves contra, principalmente, os cortes e congelamentos dos salários do país.
A Grécia, impossibilitada de honrar o vencimento de suas dívidas e tendo iniciado a efetivação de medidas de austeridade fiscal para conter o déficit, aguarda o apoio financeiro iminente da União Européia e do FMI para refinanciar suas dívidas sem a necessidade de pagar os exorbitantes juros exigidos pelos credores internacionais já que, na última semana, os títulos gregos foram rebaixados. A agência de classificação de risco Standard & Poor’s retirou, na última semana, o grau de investimento da Grécia e rebaixou a avaliação dos títulos da dívida o que agravou ainda mais a frágil situação econômica do país.
Tem-se discutido nas últimas semanas a dimensão da ajuda necessária a Grécia e, mesmo com a relutância Alemã em liberar recursos, o FMI tem demonstrado disponibilidade crescente em realizar empréstimos condicionados ao aumento das medidas de austeridade fiscal. Os 45 bilhões de euros oferecidos inicialmente pela União Européia e pelo FMI parecem não ser suficientes para retirar a economia grega da crise e estimasse que fosse necessário emprestar 120 bilhões de euros à Grécia para que estabilize sua condição econômica. A questão em discussão atualmente é a liberação de recursos para pagamento da dívida grega, cujos vencimentos somam 50 bilhões de euros somente neste ano, e qual seria a participação dos outros países membros da União Européia no empréstimo em conjunto com o FMI.

Gabriel Pires – Pet-Economia/UFF

por PET-Economia/UFF Publicado em Resenhas