Boletim de Conjuntura Monetária 2010

Boletim de Conjuntura Monetária 2010
Gabriel Miranda Pires
Rodrigo Siqueira Rodriguez
Orientador Marcelo Carcanholo

Crédito

O Saldo Mensal das Operações de Crédito tem, consecutivamente, mantido a trajetória de crescimento. Tanto os Recursos Direcionados quanto os Recursos Livres cresceram ininterruptamente ao longo dos anos 2009 e 2010. Em Janeiro de 2009, os saldos de recursos livres e direcionados foram de, aproximadamente, R$ 871 e de R$ 357 milhões de reais, respectivamente. Confirmando a tendência de crescimento, o saldo de dezembro de 2010 dos recursos livres e direcionados foram de, aproximadamente, R$ 1,115 bilhões e de R$ 589 milhões de reais, respectivamente. O Gráfico 1 demonstra o volume que os recursos livres e direcionados alcançaram. Estes superaram 1,6 bilhões de reais em setembro de 2010 e finalizaram o ano em, aproximadamente, 1,7 bilhões de reais.

Gráfico 1

Se por um lado o saldo mensal das operações com recursos livres e direcionados cresceu ininterruptamente ao longo dos últimos dois anos, por outro, deve- se analisar qual foi sua expansão em relação ao PIB. Conforme indica o Gráfico 2, a partir do início de 2010, houve uma tendência de estabilização da relação Recursos Livres/PIB. Já a relação Recursos Direcionados/PIB cresceu um pouco ao longo do ano de 2010.
O Gráfico 3 expõe as taxas de variação mensal das variáveis apresentadas no último parágrafo. A taxa de variação mensal dos recursos direcionados supera a taxa de variação mensal do PIB a partir de maio de 2010, o que explica o aumenta da relação Recursos Direcionados/PIB exposta no gráfico 2. Em relação aos recursos livres, sua taxa de variação mensal foi próxima à taxa de variação mensal do PIB, a partir de maio de 2010, o que explica a estabilização da relação recursos livre/ PIB.

Gráfico 2

Gráfico 3

Os recursos livres e direcionados se subdividem conforme apresenta o gráfico 4. Podemos perceber, ao observá-lo, quais as variáveis que mais cresceram no período. Os destaques são os recursos livres para pessoa jurídica e física, bem como os recursos direcionados pelo BNDES. O saldo mensal de recursos livres para pessoa física passou de R$ 399 milhões, em janeiro de 2009, para R$ 559 milhões em dezembro de 2010. O saldo mensal das operações de crédito para pessoa jurídica passou de R$ 472 milhões, em janeiro de 2009, para R$ 555 milhões em dezembro de 2010. Já os recursos direcionados pelo BNDES passaram de R$ 209 milhões, em janeiro de 2009, para R$ 357 milhões em Dezembro de 2010.

Gráfico 4

Ao observar qual a participação de cada um dos componentes dos recursos direcionados em relação ao seu total, percebe-se que a participação do BNDES não se altera significativamente, segundo o Gráfico 5. Mesmo com o crescimento significativo dos recursos direcionados pelo BNDES, a participação em relação ao total de recursos direcionados continua próxima a 60%. Portanto, outro componente dos recursos direcionados também foi ampliado significativamente. Ao observar o gráfico, conclui-se que este foi o recurso direcionado para habitação que, juntamente com o BNDES, expandiu consideravelmente.

Gráfico 5

Ao observar os gráficos 6 e 7, percebe-se a rigidez do spread tanto de pessoa física quanto de jurídica. O spread de pessoa jurídica mantém trajetória de queda, mas esta ainda é pequena. Já o spread para pessoa física, embora tenha caído nos primeiros meses, não se alterou significativamente nos últimos meses do ano de 2010.

Gráfico 6

Gráfico 7

Política Monetária

O primeiro semestre de 2010 foi marcado por uma tendência inflacionária e pelo aquecimento da economia. Tal fato repercutiu na decisão do COPOM ao determinar qual seria o aumento da taxa básica de juros da economia. Mesmo com o aumento do nível de atividade e na identificação de uma tendência inflacionária, foi decidido manter a selic em 8,75% nas primeiras reuniões do ano. Os membros do COPOM optaram por aguardar e observar a tendência inflacionária para decidir se realmente seria necessário elevar a taxa de juros.
Devido a pressão inflacionária, o COPOM optou por elevar a taxa básica de juros para 9,5% a.a no segundo trimestre de 2010. A continuidade da pressão inflacionária levou o COPOM a elevar a taxa básica de juros para 10,25% como forma de conter a expansão do nível de preços.
Ao deliberar a respeito da alteração da taxa básica de juros, o COPOM considera a defasagem entre a medida e seus efeitos sobre a atividade econômica. Por esta razão, a taxa básica de juros não foi alterada nos últimos meses do ano de 2010. O Comitê considerou que a elevação, sucessiva, em meados do ano ainda não foi totalmente repassada para a atividade econômica.
A defasagem da política monetária e a incerteza quanto ao cenário externo pesaram na decisão de não elevar a taxa básica de juros. A política estadunidense de ampliação da liquidez e a incerteza quanto ao restabelecimento de algumas economias centrais tornaram o cenário externo incerto para o Banco Central. Apesar de, na última reunião do ano de 2010, o Comitê identificar aceleração da inflação e, em suas projeções, a inflação passaria da meta estabelecida para o ano, preferiram manter a taxa básica de juros em 10,75%. Recorreram a outras medidas para conter a inflação. Medidas estas chamadas de macroprudenciais que envolveram alteração dos depósitos compulsórios e do aumento das reversas de capital para empréstimos a longo prazo.

Tabela 1

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Relatório PIB 2010

Relatório PIB 2010
Thiago Marino Leão
Orientador : Marcelo Dias Carcanholo

O resultado apresentado pelo PIB Brasileiro ao final de 2010 pode, a primeira vista, levar a uma positiva e otimista conclusão para o ano de 2011. Na taxa acumulada em 12 meses, o PIB brasileiro alcançou um crescimento de 7,5% em relação ao ano anterior e, com relação ao mesmo período, um crescimento em torno de 21,5% na Formação Bruta de Capital Fixo (FBKF).
Outros indicadores também apresentaram resultados finais bastante positivos em 2010. Entre estes podemos citar a Indústria, com crescimento de 10,1%, e o Consumo das Famílias, com expansão de 7,0%.
Contudo, tais dados devem ser analisados com cautela. Primeiramente, devesse ressaltar a óbvia fraca base comparativa de 2009 onde a economia brasileira recuou 0,6% ao mesmo passo em que a FBKF e a Indústria apresentaram resultados negativos de 10,3% e 6,42%, respectivamente.
Além disso, sinais de desaceleração podem ser encontrados durante o ano de 2010. Em meio a um cenário de forte valorização cambial e ao combate à inflação iniciado pelo Banco Central, a Indústria apresentou desaceleração, e recuo se considerados os dados dessazonalizados, considerável desde o 3º trimestre de 2010 e, durante o mesmo período, a FBKF apresentou crescimento a taxas decrescentes.
Outro motivo de preocupação refere-se à manutenção do descompasso entre exportações e importações. Apesar do resultado bastante positivo das exportações em 2010, 11,5%, este foi mais que compensado pelas importações, 36,2%.

Análise da Variação dos Principais componentes do PIB em 2010

Durante o ano de 2010 o PIB brasileiro manteve a tendência de recuperação iniciada no 2º trimestre de 2009. Contudo, a análise trimestral revela que o dinamismo inicial não pode ser mantido.
Apesar do positivo o acumulado dos últimos 12 meses, onde a PIB apresentou um bom resultado positivo de 7,5%, o ímpeto com o qual tal resultado foi obtido começou a desacelerar já no 2º trimestre de 2010, onde cresceu 1,6%, e despencou no último semestre do ano, quando a variação trimestral caiu para 0,4% e 0,75%. Tal que da pode ser, inclusive, observada na variação da taxa acumulada através da estabilização do PIB entre o 3º e o 4º trimestres.

Gráfico 1

Gráfico 2

Apesar do resultado bastante superior ao que se previa no início do ano pelo FMI e outras organizações, as quais indicavam um possível de 5,5% para o Brasil em 2010, os últimos desempenhos do PIB são motivo de preocupação.
Passemos, então, para a análise dos componentes do PIB na tentativa de determinar possíveis causas para tal perda de ritmo e de expectativas quanto ao ano de 2011.

Análise do PIB: Ótica da Oferta

A análise da taxa acumulada dessazonalisada dos componentes de oferta do PIB em 2010 apresenta resultados otimistas. O melhor resultado fica por conta da Indústria que apresentou crescimento de 10,1% no ano, enquanto o Setor Agropecuário apresentou crescimento anual de 6,0% e o Setor de Serviços cresceu 5,4%.
No Setor de Serviços os destaques foram o Comércio e os serviços de Intermediação Financeira, os quais apresentaram uma taxa acumulada de 10,85% e 10,70%, respectivamente.
No Setor Industrial a Indústria Extrativa Mineral teve um alto desempenho global de 15,6% e a Construção Civil apresentou uma taxa acumulada de 11,75%. No mesmo período a Indústria de Transformação apresentou crescimento de 9,7%. Vale ressaltar que, no ano de 2009, a Indústria de Transformação havia apresentado o pior resultado anual, retraindo 8,22%.

Gráfico 3

Contudo, como indicado anteriormente, a análise das variações trimestrais não nos apresenta um cenário tão positivo quanto à variação anual. Com base nesta veremos que o Setor Agropecuário apresentou recuos de 1,57% e 0,79% (ajustada a sazonalidade) nos últimos trimestres de 2010.
Da mesma forma o Setor Industrial também apresentou recuos de 0,56% e 0,31% no segundo semestre. Isto refletiu uma leve desaceleração do subsetor Extrativo Mineral e, principalmente, os resultados negativos da Indústria de Transformação, a qual recuou 1,59% e 0,43% no segundo semestre.
Apesar de não ter apresentado recuos o Setor de Serviços também apresentou leve desaceleração no último semestre de 2010.

Gráfico 4

Gráfico 5

Podemos, então, perceber que apesar do bom resultado no ano, tanto a Indústria, e, neste caso, principalmente a de Transformação, quanto a Agricultura apresentaram sinais de desaceleração na segunda metade do ano de 2010.

Análise do PIB: Ótica da Demanda

Da mesma forma como ocorreu entre os componentes de Oferta do PIB, a análise da taxa acumulada pela ótica da Demanda apresenta resultados bastante positivos. Podemos observar um forte crescimento tanto do Consumo das Famílias quanto, principalmente, da FBKF (7,04% e 21,98%, respectivamente). Contudo, aqui também não devem ser tiradas conclusões precipitadas.
Devemos, em primeiro lugar, voltar a ressaltar a fraca base comparativa. Em 2009, a FBKF havia apresentado forte queda de 10,34% em sua taxa acumulada. Deve ser ressaltado, também, que a FBKF, assim como vimos nos dados de Oferta, apresentou taxas de variação decrescentes durante o ano de 2010.
Os Gastos do Governo apresentaram crescimento modesto durante o ano e encerraram 2010 com um crescimento acumulado de 3,32%. Vale observar que este índice também apresentou resultados decrescentes e, inclusive, negativos durante o segundo semestre de 2010.
Já a balança comercial continuou sendo um forte motivo de preocupação e desequilíbrio durante o ano de 2010. Apesar do bom resultado apresentado pela taxa de crescimento acumulada das Exportações (11,53%), este foi mais que compensado pelo das Importações que apresentou uma taxa acumulada de 36,19%.
Uma possível boa perspectiva para a balança comercial, entretanto, vem da análise trimestral. Apesar das oscilações, as Exportações apresentaram uma estável tendência de crescimento em 2010 enquanto as Importações cresceram a taxas decrescentes. Além disso, a taxa de variação trimestral no último trimestre de 2010 foi quase igual entre estes dois indicadores, com ligeira vantagem para as Importações (3,63% e 3,92%).

Gráfico 6

Gráfico 7

Da mesma forma como nos componentes de Oferta, podemos aqui observar uma combinação de bons índices anuais e taxas decrescentes de crescimento no que se refere à FBKF, o que serve de alerta para o ano de 2011. Tais resultados são, possivelmente, causados pela fraca base comparativa de 2009 e por medidas de combate à inflação adotadas no período.
O comércio externo também continua, como nas avaliações anteriores, a representar um desafio para a economia brasileira. Apesar da redução da taxa de crescimento das Importações ao longo do ano, possivelmente em resposta à redução da FBKF durante o mesmo, esta continua consideravelmente alta em relação às Exportações, na análise anual, e ainda apresenta um crescimento superior.

Análise da Composição do PIB

Composição do PIB: Ótica da Oferta

Comparando a participação média dos componentes de Oferta do PIB veremos que a Indústria apresentou crescimento relativo frente à Agricultura e aos Serviços. Contudo, o Setor Industrial ainda não retornou ao seu grau de participação de 2008.
Durante o ano de 2010 a Indústria respondeu por 26,79% do PIB, chegando ao seu máximo no 3º trimestre quando representou 27,94%, valor superior à média de 2008 e mais alto desde o 3º trimestre deste mesmo ano. O Setor Agropecuário recuou para 5,80% do PIB, valor inferior à média de 2008 (5,94%). Já o Setor de Serviços respondeu por 67,42% do PIB, recuando 1,11 pontos percentuais em relação à 2009, mas ainda superior à média de 2008.

Gráfico 8

Composição do PIB: Ótica da Demanda

Analisando a variação anual média dos componentes de Demanda do PIB veremos que o Consumo das Famílias continua respondendo por mais da metade do PIB (60,66%) e, apesar de ter sofrido uma pequena queda em relação à média de 2009, manteve-se acima da média de 2008. Contudo, vale ressaltar que sua participação média teve uma tendência de queda ao longo do ano (representando 63,17% no 1º trimestre e 59,15% no 4º).
Os Gastos do Governo apresentaram similar comportamento em relação às médias anuais e respondeu por 21,08%. Mas, ao contrário da tendência de queda apresentada pelo Consumo das Famílias, este apresentou participação crescente ao longo do ano (partindo de 19,95% no 1º trimestre e encerrando o ano em 24,56% do PIB).
Os Investimentos (FBKF mais as Variações de Estoque) responderam por 19,27% do PIB e ampliaram sua participação em relação à 2009, mas permaneceram abaixo da média de 2008 (20,70%). Na análise individual da FBKF, veremos que esta respondeu por 18,44% do PIB 2010 (contra 19,09% de 2008) e que na passagem do 3º para o 4º trimestre deste ano sua participação caiu de 19,43% para 17,95%.
Já a Balança Comercial ampliou seu resultado negativo em relação ao de 2009. Este saldo representou um valor negativo de 1,01% do PIB (uma redução de 0,97 pontos percentuais em relação à média de 2009). Na análise individual veremos que as Exportações reduziram minimamente sua participação relativa no PIB em relação à 2009 em 0,06 pontos percentuais e responderam por 11,12% em 2010. Já as Importações ampliaram a sua participação em 0,91 pontos percentuais e se igualaram a 12,14% do PIB em 2010.

Gráfico 9

Gráfico 10

Conclusões

Se analisarmos o ano de 2010 pelo crescimento em relação a 2009, poderemos concluir que 2010 foi um ano de grande crescimento para a economia brasileira. Com crescimento de 7,5% no PIB, 10,10% da Indústria e 21,98% na FBKF o Brasil demonstrou ser capaz de sair da crise e apresentar indicadores ainda melhores do que os esperados. Quanto a isto, entretanto, devemos nos lembrar que o ano de 2009 representa fraca base comparativa e “auxiliou” tais resultados tão expressivos.
Contudo, o ritmo de crescimento brasileiro parece estar dando sinais de esgotamento já no 3º trimestre de 2010 e sem perspectivas de melhora para 2011. O Setor Industrial e a FBKF desaceleraram e, no caso da indústria, até observou-se recuo.
No setor externo do PIB a situação também não parece favorável. Apesar de ter apresentado taxas de crescimento decrescentes (em parte devido à queda na taxa de FBKF) as Importações apresentaram crescimento sempre superior às Exportações e ampliaram o diferencial entre os dois.
Como agravante para as expectativas em relação ao ano de 2011 devem ser incluídas as expectativas de manutenção da valorização do real frente ao dólar e a adoção de medidas, tanto pelo governo quanto pelo Banco Central, para combater a possibilidade de inflação como fatores que colaborarão para a continuação da perda de dinamismo da economia brasileira.
Mantidas as tendências de 2010 e as expectativas quanto às políticas econômicas do governo brasileiro torna-se muito provável a ocorrência de fracos resultados para a economia brasileira no ano de 2011, em oposição ao alto crescimento de 2010, e uma não melhora na balança comercial.