A crise e o povo: crônicas de uma reação anunciada

                                                                                        Por Edson Mendonça da Silva e Talita Moutinho

A especulação financeira e a crise

Desde 2008, a economia mundial sofre com uma crise de grandes proporções e têm afetado milhares de pessoas, principalmente nos Estados Unidos e Europa. Assim, não é a toa que o continente europeu e a 1º economia do mundo são hoje grandes palcos de manifestações que reúnem milhares de jovens desempregados. No dia 15 de outubro deste ano, não só os países mais afetados, mas em outros também, ocorreu grandes atos contra os efeitos da crise econômica.Segundo os organizadores das manifestações globais, estas ocorreram em 951 cidades de 82 países.

Para compreender melhor, as razões desta reação popular é fundamental entender brevemente, os últimos impactos da crise de 2008, principalmente nos países da “periferia da Zona do Euro” . Além desta região na Europa, as recentes notícias da crise nos EUA justificam-se por si uma resposta popular, como “Occupy Wall Street” .

Há uma “pré-história” da crise de 2008 que abalou os mercados mundiais. Desde a década de 1970/1980, a economia mundial passava por uma crise (p.ex.: choque do petróleo, elevação da taxa de juros nos EUA e etc) e precisava de uma “resolução” para garantir a expansão do capital. A “resolução” resultou num processo político e econômico denominado de neoliberal. Em linhas gerais, o neoliberalismo promoveu uma liberalização financeira e comercial, uma reestruturação e flexibilização do mercado de trabalho e um novo papel para o Estado, este agora tendo que intervir cada vez menos.

Assim, emerge na economia mundial, a hegemonia do capital financeiro que “não só dominou o cenário capitalista, como superou os investimentos produtivos no que se refere à capacidade de apropriação de lucros” . Neste período é o capital financeiro dirige a dinâmica capitalista em sua etapa neoliberal, “conseguindo” impedir uma queda na rentabilidade dos capitalistas e uma nova crise. Como o seu modo de ser, o capital financeiro se move através da especulação, do rentismo (inclusive com dívida pública, como aqui no caso). A crise de 2008 pode ser entendida como uma fase de esgotamento de “uma etapa específica do capitalismo” , uma fase de hegemonia do capital financeiro.

Em 2007, após excessos de bolha especulativa na economia, os bancos europeus necessitavam de liquidez e o Banco Central Europeu (BCE) forneceu grandes volumes de liquidez, permitindo os bancos recuperarem os seus balanços. Mesmo assim, houve uma queda do crédito e num momento de crise, apenas intensifica o processo recessivo. Após 2008, observou-se um aumento da intervenção dos Estados Nacionais e “adotaram pacotes de estímulos fiscais, sendo que também houve movimentos de socorro a bancos que se encontravam em má situação” . Esta atuação contra a crise elevou os gastos públicos e houve uma piora no déficit público em países como Irlanda, Espanha e Grécia. Neste período, “O BCE limitou-se, negligentemente, a assistir ao aumento das taxas de juro, à especulação das instituições financeiras com os títulos de dívida pública e à conseqüente possibilidade de bancarrota dos Estados” .

Com o aumento dos gastos públicos e a conseqüente elevação dos déficits públicos, os países da periferia da Zona do Euro sofreram com a elevação do risco-país e observou-se uma nova onda de especulação financeira. Agora era a possibilidade ou não dos países, denominados PIIGS (Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha) de honrar seus compromissos, que merece registro: “a banca dos países do centro da zona euro (Alemanha, França, Holanda e Bélgica)” . Com a especulação sobre a dívida pública, o mercado encontra novos espaços de valorização do capital (leia-se: novos ganhos de lucratividade) num momento de crise. A dívida pública como espaço de valorização do capital não é recente, basta observamos o movimento do capital financeiro desde 1970 . Por fim, o roteiro da crise na Europa e como setor financeiro cria e se aproveita da crise, pode ser entendido como analisado pelo Research Money On Finance:

“As receitas públicas tinham entrado em colapso à medida que a recessão avançava, enquanto a despesa pública tinha aumentado para resgatar o quase falido sector financeiro e, eventualmente, para manter os níveis de procura interna. Neste contexto, os estados-membros financiaram-se nos mercados internacionais de capitais no pior momento. Com a banca relutante em emprestar, os yields subiram para toda a dívida pública. Perante a complacência do BCE, o capital financeiro enveredou por ataques especulativos nos mercados de dívida pública dos países periféricos. Resumindo, o sector financeiro europeu foi resgatado para tão só, na primeira oportunidade, atacar quem o salvou” (RMF, 2010)

Os pacotes de ajuda financeira do FMI e do BCE implica aos países da periferia da Zona do Euro medidas já conhecidas pelo seu caráter ortodoxo: cortes de gastos públicos, principalmente em saúde, educação e seguridade social, com objetivo de reduzir o déficit público (o “plano de austeridade fiscal”), aumento de impostos e redução de salários do setor público. Pelo caráter da contrapartida do pacote pode-se observar que tal “ajuda”, ao contrário do que o mercado analisa, na verdade acentua a crise no continente, ao invés de resolver ou atenuá-la.

A reação anunciada

O movimento “Ocupa Wall Street” surgiu no ápice da crise econômica que atinge o capitalismo desde 2008 e se inspirou nos movimentos sociais europeus. Ele apresenta algumas características, dentre essas destacamos: pacíficos, com uma densa e complexa diversidade social, utilizam-se de redes sociais e estão se apresentando com uma inovação política.
Percebemos que o movimento aconteceu, em um primeiro momento, em vários lugares dos Estados Unidos, entre eles temos: Nova York, que foi que deu início, Seattle, San Diego, Kansas City e em vários lugares do Texas. Em seguida, estes lugares presenciaram uma forte ação repressora contra o movimento que se desencadearam em prisões.
O principal foco foi quando houve a tomada em 17 de setembro, iniciou-se a ocupação na Praça da Liberdade, que tinha como proposta fazer uma “marcha” até Wall Street, em reivindicação a uma “limpeza” do setor financeiro. Essa ocupação foi reprovada pelo prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, que pretendia expulsar os revoltosos da praça, usando a força policial. Quando já se podia contar com cerca de dois mil manifestantes, uma grande empresa deu apoio ao movimento e também houve uma grande paralisação, de maneira geral,- a prefeitura recebeu ligações de todo o país e uma petição com mais de cem mil assinaturas apoiando “Ocupa Wall Street”. Isso obrigou-os a suspender sua ordem de expulsão minutos antes da polícia intervir. Os manifestantes acreditavam que o tema da limpeza era somente um pretexto para expulsá-los da praça. Mais tarde, cerca de 200 a 400 pessoas iniciaram a “marcha” que ao chegar à rua foram impedidos de realizar a manifestação por policias. Houve enfrentamento que ocasionou em dez detidos. O movimento convocou ações que abrangem um patamar internacional a realizar uma manifestação no dia 15 de outubro.
Na Europa observou-se a formação e atuação de diversos movimentos em torno de atos globais no dia 15 de outubro, que tem nos “indignados” espanhóis, talvez a maior expressão . Esses movimentos possuem algumas características : (1) têm uma “densa e complexa diversidade social”; (2) são “pacíficos, recusando-se a adotar táticas violentas e contra a lei, evitando, deste modo, a criminalização”; (3) usam “redes sociais, como facebook e twitter, ampliando sua área de intervenção territorial e mobilização social”; (4) são “capazes de inovacão e criatividade política na disseminação de seus propósitos de contestação social”, (5) “expõem, com notável capacidade de comunicação e visibilidade, as misérias da ordem burguesa no pólo mais desenvolvido do sistema apodrecido pela financeirização da riqueza capitalista”; e (6) “reivindicam a democratização radical contra a farsa democrática dos países capitalistas centrais”.
Apesar de novas características e uma grande dimensão assumida nos últimos meses, esses movimentos possuem algo de efêmero, pois “não incorporam utopias grandiosas de emancipação social que exigem clareza politico-ideológica”. Assim, limitam-se a uma “indignação moral” com uma consciência contingente, sem aprofundar nas reivindicações expressas, a causalidade estrutural e histórica entre a crise econômica e o capitalismo.
O Brasil apoiou o movimento, assim como Grécia, Chile, Estados Unidos e países do Oriente Médio, que de forma distintas estão realizando manifestações massivas. No Brasil, cada região se organizou de um forma, foram analisados na rede social- facebook- que haviam cerca de 41 locais de eventos com mais de 11mil indivíduos confirmados. Em São Paulo ocorreu um acampamento no Vale do Anhangabaú e uma ocupação da Fundação Nacional das Artes (Funarte), com o lema “é hora de perder a paciência”, ambos promoveram discussões sobre o tema. O movimento estudantil realizou ocupações de reitorias na onda das greves dos técnico-administrativos com importantes conquistas. No sindicalismo, algumas outras categorias como trabalhadores da construção civil, do Correios e bancários também fizeram grandes greves.
Os próximos passos da classe dominante européia para “ajudar” as economias do continente, e também as ações dos EUA no que diz respeito a recuperação de sua economia ira impor, dado uma projeção de piora de cenário (algo bem realista, como mostra a eleição de um “governo técnico” na Itália e a vitória da direita na Espanha), aos movimentos emergentes da crise de 2008 novos desafios e possibilidades. Muito provável, a reação popular não impeça a virada conservadora na Europa, e talvez nos EUA, e seus efeitos sobre os jovens e os trabalhadores, mas com certeza será um espaço privilegiado de articulação e ação contra o conservadorismo.

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por PET-Economia/UFF Publicado em Resenhas

[CULTURA] O Poeta do Castelo (1959)

Documentário de Joaquim Pedro de Andrade. Elenco: Manuel Bandeira.
Versos de Manuel Bandeira, lidos pelo poeta, acompanham e transfiguram os gestos banais de sua rotina em seu pequeno apartamento no centro do Rio; a modéstia do seu lar, a solidão, o encontro provocado por um telefonema, o passeio matinal pelas ruas de seu bairro. Simplesmente, uma pérola.

Vale a pena conferir!

Ser Economista

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“O estudo da teoria econômica não parece exigir qualquer dom especializado de grande profundidade. Não é… um assunto relativamente fácil quando comparado com a filosofia ou a ciência pura?

Uma disciplina fácil, em que poucos se sobressaem! O paradoxo talvez seja explicado pela constatação de que o economista deve possuir uma rara combinação de dons. Tem de ser matemático, historiador, estadista, filósofo – em certa medida. Deve entender de símbolos e falar através de palavras. Deve ver o particular em termos do geral, e abranger o abstrato e o concreto no mesmo pensamento. Deve estudar o presente à luz do passado para entender o futuro. Nenhuma parte da natureza humana ou de suas instituições deve ficar completamente fora de seu olhar. Deve ser ao mesmo tempo interessado e desinteressado, tão distante e incorruptível quanto um artista, e, contudo, às vezes tão próximo da terra quanto um político. “

John Maynard Keynes.

Boletim da Conjutura

Análise conjuntural do Setor Externo – 2º trimestre de 2011.
Luhan Martins Reigoto

Gráfico 1

Fonte: Banco Central do Brasil. Elaboração própria.

O saldo da Balança Comercial no acumulado do segundo trimestre de 2011 foi de US$ 9.808,82 (milhões), ou seja, 40,08% maior em relação ao mesmo período de 2010. Porém, se comparado ao segundo trimestre de 2009, sofreu uma redução de 10,17%, de US$ 10.920,71 (milhões) em 2009 para US$ 9.808,82 (milhões) em 2011. As exportações, no acumulado, foram de US$ 67.070,71 (milhões), um aumento de 34,25% em relação a 2010 e de 72,97% em relação a 2009, onde foi de US$ 38.773,99 (milhões).  As importações foram,  no acumulado do segundo trimestre de 2011, de US$ 57.261,90 (milhões), 33,30% e 105,58% maior que em 2010 e 2009 respectivamente.

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Palestra: Política Fiscal no Brasil

A pesquisa do PET de economia do ano de 2011 tem como tema Tributação e Política Fiscal. E no mês de outubro, a Faculdade de Economia da UFF teve o prazer de receber Maria Lúcia Fattorelli – Auditora Fiscal da Receita Federal, Presidente da Delegacia Sindical do Unafisco em Belo Horizonte, Coordenadora do Fisco Fórum-MG e da Auditoria Cidadã da Dívida pela Campanha Jubileu Sul e autora do documento “Mentiras e Verdades sobre a Reforma da Previdência” – para uma palestra organizada pelo PET. O assunto apresentado foi “Política Fiscal no Brasil: Retrato e Fundamentos”. A apresentação encontra-se disponível pelo link:

http://www.4shared.com/document/kLB7-Cpc/UFF-Poltica_Fiscal_no_Brasil-R.html

Foi discutido como a Política Fiscal desenvolve-se no Brasil, desde a arrecadação de tributos até sua redistribuição. As falhas e as conseqüências que elas trazem para o país. A questão da dívida pública foi tratada com ênfase, de forma esclarecedora e dada como de grande importância pelo atual cenário mundial.