Indústria da Beleza

 Clara Bizzo e
Talita Moutinho

“A beleza é a melhor carta de recomendação.” Impreciso ou não, Aristóteles não imaginava que sua frase pudesse ter tanto efeito na economia. Pesquisas empíricas feitas nos EUA, na década de 70, mostraram que a beleza influencia no mercado de trabalho, e também que ela tem relação com o sucesso econômico individual. O resultado foi um impacto positivo da aparência do trabalhador em seus rendimentos. Na década seguinte à pesquisa realizada, foi analisado que esses fatores também começaram a afetar o Brasil, onde a indústria de cosméticos crescia e ganhava cada vez mais espaço.

Segundo Hamermesh¹, existe segregação salarial relativa ao aspecto do indivíduo, onde pessoas de boa aparência ganham mais do que pessoas de aparência simples. Uma análise mais profunda mostra que há, na verdade, uma penalização pela ausência de beleza 5% a 10% maior do que o prêmio por esta, tornando assim este um fator cotidiano essencial para profissionais. Isso se verifica tanto para homens quanto para mulheres.

Com a ampliação da importância dada à aparência física, constatou-se um aumento da demanda de serviços de estética e higiene pessoal. Aliada a esse fato, a entrada cada vez maior das mulheres no mercado de trabalho fez com que a indústria da beleza tivesse um crescimento nunca visto antes.

A exigência de uma boa feição implica no consumo de serviços e produtos que movem grandes volumes de capitais. Diante disso, as indústrias de cosméticos e perfumaria concretizam admiráveis investimentos. Também se deve levar em conta, a importância que as culturas têm dado à beleza e a autoridade da moda na decisão do consumo.

As mudanças consequentes da maior valorização do aspecto físico pessoal podem ser observadas através do desaparecimento de barbearias e o maior número de salões unissex e centros de estética. Observou-se que as barbearias, limitadas a cortes de cabelo, estão dando lugar aos centros de estéticas, onde se realizam inúmeros procedimentos: cortes de cabelo, manicures, pedicures, depilação, massagens. Além disso, é notável a expansão de empresas brasileiras como a Natura que possuía 285.000 consultoras, no ano 2000, de acordo com a ABEVD (Associação Brasileira de Empresas de Vendas Diretas) e a O Boticário com mais de 2.270 lojas no Brasil.

 

Para sustentar a nova demanda pelos produtos de cosméticos e serviços estéticos houve necessidade de empregar mais mão de obra e os profissionais da área tiveram que se atualizar adequando-se ao ritmo e as exigências dos consumidores. A absorção de mão de obra nesses setores exige pouca qualificação para o exercício das tarefas. Porém isso não é uma característica exclusiva do segmento, é na verdade, uma constante da força de trabalho brasileira. Os profissionais que compõem a indústria da beleza possuem um rendimento baixo, mas que vem crescendo aos poucos. Muitos trabalham por conta própria e outros trabalham para complementação de renda, nesse caso, há grande participação de pessoas mais velhas.

 

O Brasil ocupa no ranking internacional uma elavada colocação no número de mercados deste setor. Ele se encontra na sexta posição como maior mercador consumidor de produtos higiene pessoal, perfumaria e cosméticos, com um comércio avaliado em US$ 8,5 bilhões, segunda pesquisas da Abiphec de 2000. Adotando alguns produtos, percebemos que o Brasil é o terceiro maior consumidor de fraldas descartáveis, absorventes e desodorantes; quarto em higiene oral, produtos para cabelo, produtos infantis e perfumaria; sexto em produtos para banho; sétimo em produtos masculinos; oitavo em maquilagem e protetor solar; e nono em produtos para pele. De acordo com esse quadro, as empresas internacionais expandem gradualmente atividades produtivas e comerciais na economia brasileira.

 

Analisando as trocas internacionais destes produtos, o Brasil não possui participação significativa nos principais mercados mundiais. O principal destino das vendas externas brasileiras, vão para a Argentina, que responde por quase 20% das exportações totais. Já pelo lado das importações, o Brasil opta por comprar dos países desenvolvidos. Dos cinco principais vendedores de produtos cosméticos, quatro são desenvolvidos, sendo os EUA com 21,6%, a França com 19,2%, a Alemanha com 12,7% e a Suíça com 5%. A Argentina, apresenta 15,5% das importações brasileiras.

 

Pode-se concluir que a aparência física e o domínio da moda ganham cada vez mais peso nas relações sociais e econômicas.  Se isso representa melhora ou piora nas relações, deve ser analisado com cuidado. O fato é que  as atividades  aparentemente simples impulsionam o setor industrial (material elétrico, perfumaria, cosméticos) e serviços de engenharia, arquitetura, acessoria financeira e comércio. E por fim, passam a ser essenciais na vida das pessoas.

 

¹Professor da Universidade do Texas em Austin e pesquisador no Departamento Nacional de Pesquisa Econômica.

 

Bibliografia:

 

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por PET-Economia/UFF Publicado em Resenhas

Boletim de Análise da Política Fiscal 1ºsemestre de 2012

Reginaldo Carvalho
Orientador: Victor Araújo

 1.      DÍVIDA PÚBLICA

A dívida líquida do setor público (DLSP) iniciou 2012 em elevação, alcançando 37,6% do PIB no mês de fevereiro, apresentando variação de 1,2 pp. com relação ao último mês de 2011 e -1,2 pp. quando comparado ao mesmo mês de 2011. O mês de março significou uma inflexão nesta trajetória, com queda de 1 p.p, fechando o trimestre em 36,6% do PIB. (Gráfico 1.1)

Cabe ressaltar que a DLSP é a diferença entre o valor total da dívida bruta descontados os ativos e é, por convenção, o principal indicador de solvência do Estado. Como veremos adiante, a sua dinâmica tem sido determinada essencialmente pelos ajustes cambiais, ao contrário do que se pensa que é por aumento de gastos governamentais ou pelos juros nominais. A análise dos condicionantes permitirá perceber este movimento.

Gráfico 1.1

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Fonte: BCB. Elaboração própria.

De acordo com o gráfico 1.2, o comportamento volátil da relação DLSP/PIB a partir do segundo semestre de 2011 pode ser atribuído ao ajuste cambial – nos dois primeiros meses a contribuição foi positiva em 1,2 pp. e em março a contribuição foi negativa em –0,8 pp. Este comportamento decorreu do comportamento também volátil da taxa de câmbio, que se valorizou nos dois primeiros meses do ano – passando de R$ 1,8362/US$ em dezembro/2011 para R$ 1,7178/US$ em fevereiro, e para R$ 1,7947/US$ em março. Apesar de apenas uma parte residual da dívida pública ser atrelada à taxa de câmbio (gráfico 1.3), a influência desta variável sobre a DLSP decorre do fato do governo brasileiro ter tornado-se credor líquido em moeda estrangeira desde 2006, isto é, acumulou mais ativos em moeda estrangeira do que dívida. As reservas internacionais, principal ativo denominado em moeda estrangeira, alcançaram US$ 365 bilhões (aproximadamente R$ 655 bilhões) no final do primeiro trimestre de 2012. Ao longo desse período, a dívida externa líquida do setor público passou de -R$379 bilhões (10% do PIB) em janeiro de 2011 para -R$547,5 bilhões (13% do PIB) em março de 2012 (Gráfico 1.4).

Gráfico 1.2

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Fonte: BCB. Elaboração própria.

Gráfico 1.3

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Fonte: BCB. Elaboração própria.

Gráfico 1.4

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Fonte: BCB. Elaboração própria.

Como vimos no gráfico 1.2, os demais fatores condicionantes não provocaram surpresas até este primeiro trimestre de 2012. O pagamento de juros nominais foi o único que contribuiu positivamente na DLSP/PIB, com 1,4 pp., distribuídos uniformemente para cada mês. A queda da participação da taxa Selic no estoque de títulos públicos federais no período estudado – de 35% para 27% – é outro dado digno de destaque (gráfico 1.3), pois evidencia a procura por títulos que ofereçam remuneração alternativa em um contexto de queda da taxa básica de juros.

Já o superávit primário, por definição, contribuiu negativamente na DLSP/PIB em -1,1 pp. A maior parte deste resultado é proveniente do governo central, que contribuiu com 72% do superávit (gráfico 1.5). Em seguida, vêm os governos regionais (estaduais e municipais), com 26%, e as empresas estatais, com 2%. Desde 2009, Petrobras e Eletrobras estão excluídas desta contabilidade.

Por fim, o crescimento do PIB, parte do denominador de nosso principal indicador, também contribuiu negativamente em 0,5 pp. Esta contribuição tem sido declinante, refletindo os impactos da desaceleração ocorrida no período, e torna a favorecer mais no começo do ano de 2012.

Todos esses fatores combinados geraram uma queda líquida da dívida em relação ao PIB de 1,0 pp. no final do trimestre.

 

Gráfico 1.5

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Fonte: BCB. Elaboração própria.

2.      CARGA TRIBUTÁRIA FEDERAL

No primeiro trimestre de 2012, as receitas federais, compostas pelos impostos, taxas e contribuições no âmbito federal, tiveram seu maior peso dado pelas receitas previdenciárias (28%) seguidas pelo Imposto de Renda (27%). Cofins[1] aparece representando 16% das receitas federais e, ainda, a CSLL[2] e o IPI[3] representaram 6% e 5%, respectivamente. As demais receitas – IOF, PIS/PASEP, imposto de importação, CPMF, CIDE e ainda outros tributos – somadas, representam 18% do total. (Gráfico 2.1)

Gráfico 2.1

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Fonte: BCB. Elaboração própria.

A arrecadação bruta federal neste primeiro trimestre de 2012 cresceu 7,32% se comparado ao mesmo período de 2011 e o imposto que mais colaborou com esse fato foi a CSLL – que cresceu, aproximadamente, 15% – seguido pelas receitas previdenciárias, que cresceu 9,3%. (Tabela 2.1)

Tabela 2.1

Arrecadação Bruta das Receitas Federais

Taxa de crescimento nominal (%) – (I/2011 – I/2012)

IR

IPI

Cofins

CSLL

Rec. Previdenciárias

Total

7,56

0,97

0,30

14,93

9,28

7,32

Fonte: BCB

 

 

3.      DESPESAS DO GOVERNO

A despesa primária total do Tesouro Nacional saltou de R$142,5 bilhões no primeiro trimestre de 2011 para R$158 bilhões no mesmo período de 2012, o equivalente a 11,3% em termos nominais. Entretanto, as despesas primárias como proporção do PIB permanecem estáveis em torno de 15% no primeiro trimestre de 2012. (Gráfico 3.1)

A maior parte da composição das despesas governamentais é dada pelo custeio da máquina pública (custeio e capital) – as despesas necessárias à prestação de serviços públicos e à manutenção da ação da administração pública e as realizadas com o propósito de formar e/ou adquirir ativos reais, respectivamente[4] – representando, neste primeiro trimestre de 2012, 32,5% do total. No terceiro trimestre de 2011, quando ocorreram as variações significantes, chegou a atingir 37%. As despesas com transferências a estados e municípios, que atingiu nesse mesmo trimestre, 24%, terminou o primeiro trimestre de 2012 representando 29% do total das despesas. (Gráfico 3.2)

A despesa total da União no primeiro trimestre de 2012 cresceu 11% se comparado ao mesmo período de 2011 sendo determinado, principalmente, pelo crescimento do investimento em 22%. Outro fator que contribuiu bastante com a elevação das despesas totais foram as despesas de custeio e capital, que cresceram 16%. (Tabela 3.1)

Gráfico 3.1

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Fonte: BCB. Elaboração Própria.

Gráfico 3.2

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Fonte: BCB. Elaboração Própria.

Tabela 3.1

Despesas do Tesouro Nacional

Taxa de crescimento nominal (%) – (I/2011 – I/2012)

Transferências a

Pessoal e

Investimento

Custeio e

Transferência

Total

estados e

encargos

capital

do TN

municípios

 

 

ao Bacen

 

10,08

3,30

22,21

16,09

11,46

11,00

Fonte: BCB

Segundo dados do SIAFI, que podemos ver no gráfico 3.4, quando separadas as despesas da União por função, a despesa com a previdência social representa a maior parte do total: 62,5%. As despesas com educação representam 4,5%, a quarta maior participação de todas as funções, perdendo apenas para as despesas com saúde (6,3%) e com a assistência social (8,5%), além das despesas com a previdência social.

Cabe ressaltar que esses dados englobam apenas os dois primeiros meses de 2012 e, ainda, que estão exclusos dos cálculos os encargos especiais e o refinanciamento da dívida. O primeiro é aquele que engloba todas as despesas sobre as quais não se pode associar a um bem ou serviço gerado no processo produtivo, como por exemplo, dívidas, ressarcimentos, indenizações entre outros, sendo, portanto, uma agregação neutra[5] – representa 61% dos gastos totais exceto o refinanciamento, com R$159 bilhões. Desta forma, quando excetuamos esses encargos, temos uma análise mais real sobre o que está sendo direcionado a cada uma das demais funções mais importantes. Também é importante citar que o gasto total com refinanciamento da dívida nesses dois primeiros meses de 2012 chegou a R$132 bilhões e, portanto, o gasto geral do governo nesse período foi de R$393 bilhões.

Gráfico 3.5

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Fonte: SIAFI – STN/CCONT/GEINC. Elaboração própria


[1] Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social

[2] Contribuição Social sobre o Lucro Líquido

[3] Imposto sobre Produto Industrializado

[4] Conceito definido pelo Ministério da Fazenda

[5] Conceito retirado do glossário da página http://www.portaldatransparencia.gov.br.