SPREAD, GOVERNO E CRESCIMENTO ECONÔMICO

Jessé Augusto e Kallel Goulart da Mota

A definição do que vem a ser Spread bancário, bem como a metodologia da análise de sua composição, são importantes para qualquer trabalho cujo assunto aborde a intermediação financeira.  Fugindo desse debate, propõe-se como definição sintética de spread como a diferença entre as taxas de juros básicas (de captação) e as taxas finais (custo ao tomador). Quanto à análise de sua composição, muito desenvolvida pelo Projeto Juros e Spread Bancário do Banco Central, desde 1999, procurou-se considerá-lo como constituído por custo administrativo, impostos, custo de direcionamento, inadimplência e margem líquida para erros e omissões.

A pesquisa envolvendo os altos spreads na economia brasileira possui muitos argumentos diferentes, os mais relevantes são a alta concentração do setor bancário como típico de países em desenvolvimento e a instabilidade de fatores macroeconômicos, tais como: a volatilidade da taxa Selic (que aumenta a aversão ao risco de crédito das instituições bancárias), o baixo crescimento da produção industrial (que aumentaos níveis de inadimplência dos empréstimos) e por fim a elevada lucratividade oferecida pelas aplicações em títulos públicos (que constituem alternativa líquida e segura de investimento). Assim, os altos patamares das taxas de juros da economia brasileira caracterizar-se-iam pelas condições macroeconômicas recentes e um spread elevado seria uma importante causa de baixas taxas de crescimento econômico.

Na busca por crescimento pleno, o sistema financeiro, ao cumprir sua função intermediária de alocar recursos entre entes superavitários e deficitários, exerce papel essencial em uma economia. Todavia, se ele não exercer seu papel eficientemente, a economia de um país corre o risco de não desenvolver-se adequadamente – tendo a partir daí consequências negativas ao crescimento econômico. A forte regulamentação do sistema bancário possui objetivos prudenciais, visa reduzir o risco sistêmico e aprimorar a estabilidade econômica. Portanto, para que seja possível o controle eficaz, o Brasil possui diversos órgãos e entidades com a responsabilidade de normatizá-lo e de executar políticas públicas relacionadas ao sistema financeiro, tornando-o um dos mais desenvolvidos. O que em boa parte contribuiu para a diminuição dos efeitos da crise de 2008 no país.

O Governo e o Banco Central têm trabalhado juntos para possibilitar a expansão da oferta de empréstimos e financiamentos, reduzindo custos e riscos das operações de crédito. Com base nos relatórios de Economia Bancária e Crédito do Banco Central, verifica-se a implantação de várias medidas desde a implantação do Projeto Juros e Spread Bancário, com muitos sucessos e perdas devido à volatilidade econômica mundial nesse mesmo período.

Em seu relatório de Abril, o Banco Central do Brasil informou que as Instituições Financeiras (IF) são detentoras de aproximadamente 29,5% de todos os títulos da dívida emitidos. Estes títulos são emitidos pelo Tesouro Nacional (orgão do Governo Federal) com a finalidade de arrecadar recursos para investimento ou para a própria manutenção da dívida pública. No mesmo momento o estoque dos títulos emitidos era da ordem de 1,794 trilhões de Reais, ou seja, o setor financeiro tem 529,65 bilhões de Reais em ativos com o Governo Federal ¹. O custo médio da Dívida acumulada nos 12 meses anteriores até abril de 2012 é de 12,59% ao ano, um considerável retorno nominal de 66,68 bilhões de reais, demonstrando  que mesmo com baixo risco oferecido pelo  governo aos bancos, as taxas de juros oferecidas são altas. Dessa maneira há desestímulo aos bancos a correrem riscos e redirecionarem os recursos devidos. Reduzindo o potencial de investimento  e de consumo.

Segundo o DIEESE (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócioeconômicos)  as demonstrações financeiras dos 5 maiores bancos do país (Banco do Brasil, Caixa Economica, Bradesco, Itaú Unibanco e Santander) em relação aos depósitos compulsórios  em 2010 resultaram em aproximadamente 17 bilhões em juros e em 2011 essa soma apresentou um aumento de 97,4% para 33,6 bilhões, representando mais de 60% do lucro líquido dos bancos ². Tais receitas advindas de investimentos com risco praticamente zero não motiva os bancos a financiar pessoas jurídicas e físicas  a juros baixos. Isso acaba gerando um outro gasto indireto ao governo quando subsidia os empréstimos do BNDES a vários setores da economia.

O contraste de tais fatos com as medidas governamentais recentes, como a redução da taxa SELIC e a redução dos juros nos bancos públicos para pressionar a redução dos juros nos bancos privados e as várias mudanças feitas pelo governo na cobrança do IOF sobre operações de captação no exterior, para estabilizar o câmbio, não parecem seguir a política de redução do spread bancário. Em março o governo aplicou a alíquota de 6% sobre as operações de até cinco anos que antes era cobrada apenas em operações de até três anos. Na época o governo tentava controlar a entrada de moeda estrangeira que reduzia a cotação do dólar, afetando a indústria nacional. Três meses depois, em junho o governo voltou atrás e igualou o IOF a zero para operações com mais de dois anos. Dessa vez, com a valorização do dólar, o governo buscou atrair mais moeda americana e aumentar a disponibilidade de crédito no país. Pode-se notar que a regra do IOF está sendo utilizada como instrumento de controle cambial, que por sua vez desestabiliza a expectativa dos investidores  e não acompanha coerentemente a política de redução do spread. Tais variações, somadas aos juros oferecidos pelo governo por sua dívida, permitem o aumento da volatilidade do câmbio e a especulação financeira. Mesmo que os investimentos estrangeiros em carteira (IEC) apresentem redução e aparente substituição pelos investimentos estrangeiros direto(IED).

As tentativas de redução das taxas de juros praticadas no Brasil apresentam-se muitas vezes sem sincronia, principalmente pelos baixos custos de captação no exterior e pela remuneração dos títulos públicos que fornecem baixo risco ao sistema financeiro monetário privado. Um dos prováveis motivos que explicam os juros demasiado altos à pessoa física oferecido pelos bancos privados. O governo deveria examinar tais medidas em busca não só de convergir os juros aos consumidores a valores mais civilizados, como também diminuir o gasto público com o serviço da dívida, permitindo a melhor alocação dos recursos superavitários sob riscos morais seguros e crescimento econômico a patamares melhores e sustentáveis.

Fontes: (¹) Banco Central do Brasil

  • (¹)Desempenho dos Cinco Maiores Bancos em 2011 – DIEESE
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por PET-Economia/UFF Publicado em Resenhas

Análise de Conjuntura da Indústria – 2° Trimestre de 2012

Felipe Moraes

Orientadora: Lérida Povoleri

A grande expectativa de a Indústria brasileira retomar o crescimento ainda não foi alcançada, mesmo com inúmeros esforços das grandes instituições públicas visando reaquecer a economia nacional. Dentre os principais estímulos estão aqueles que mais são comentados na mídia, no caso, as reduções nas taxas de juros, o controle da ainda estável inflação, estímulo ao crédito e também o papel das desonerações buscando um estímulo ao consumo e consequentemente na demanda industrial.

O Segundo trimestre de 2012 não apresentou grandes mudanças em relação aos últimos trimestres, e as maiores surpresas estão no Comércio Exterior, onde no mês de Junho presenciou-se queda nos índices de quantidade tanto nas importações quanto nas exportações. O emprego manteve-se num patamar estável, enquanto a produtividade oscilou em torno de sua média de acordo com certa sazonalidade.

Um dos índices mais preocupantes na conjuntura atual, a Produção Física Média, por se tratar do principal meio de medir a atividade da Indústria, manteve a tendência de queda que já acontece a sucessivos meses. A situação torna-se mais preocupante ao ver que em Junho de 2012 o índice chegou a seu menor nível desde o início de 2010. No entanto, a queda não tem sido tão vertiginosa quanto no período de Julho até Novembro de 2011. Ao se comparar o desempenho da Indústria geral entre o primeiro e segundo trimestre de 2012, percebe-se queda de 1,2 pp. e a queda mais acentuada entre os meses de abril e maio, em 9 pp.

Gráfico 1

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Fonte: IBGE – Índice Base fixa 2002=100 – Elaboração própria

Analisando a Produção Física Média entre as categorias de uso, verifica-se que mesmo com a queda na Indústria geral, um dos mais importantes setores elevou-se no Segundo trimestre, os Bens de Capital. Entre os meses de Março e Abril o crescimento alcançou os 4,71 p.p. e, mantendo-se praticamente constante em Maio para ter outro ligeiro crescimento em Junho (0,26 p.p.). Por sua vez, os Bens de Consumo Duráveis fizeram movimento oposto, acumulou queda nos meses de maio e junho, fechando o trimestre em queda. Os Bens Intermediários oscilaram no trimestre sofrendo queda em Abril e Maio, mas acabou se recuperando e fechando o trimestre em patamar superior ao que iniciou.

Gráfico 2

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Fonte: IBGE – Índice Base fixa 2002=100 – Elaboração própria

Outro meio importante de se tirar conclusões sobre a Indústria doméstica é a utilização da capacidade instalada. Nela delimita-se o nível de uso dos recursos de produção dentro da economia. Mediante este fato, é plausível reafirmar a desaceleração da Indústria brasileira; os níveis estão em queda há um longo período, no entanto, estão numa queda menos vertiginosa no Segundo trimestre de 2012.

Ao fechar o mês de Junho no valor de 80,8%, o índice igualou o pior resultado desde o mês de fevereiro de 2010. No entanto, é comum a UCI aumentar no Segundo semestre do ano e, portanto, há sinais de recuperação.

Gráfico 3

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Fonte: CNI – Elaboração própria

Mesmo com o rendimento baixo na produção, a Produtividade da Indústria não sofreu tanto. As horas pagas sofreram redução de magnitude semelhante. Evidencia-se que essa situação não é favorável, pelo fato de estar em proporção semelhante, no entanto, em níveis mais baixos. Podem-se perceber também desempenhos extraordinários nos meses de Dezembro e Janeiro dos anos, com enormes variações positivas.

Como registrado anteriormente ao se calcular o índice de produtividade, as horas trabalhadas na produção estão oscilando em certa magnitude, o que evidencia a falta de produtividade da economia brasileira ao se contrastar com a Produção Física. Ao se calcular Produtividades Médias, por meio do cálculo da Média Móvel Mensal também se evidenciou a perda de produtividade que vem assolando a economia brasileira. Há o questionamento de que a perda de produtividade, somado aos aumentos salariais, tem papel relevante nas pressões inflacionárias atuais. No caso, os salários estariam acima da Produtividade Média provocando a perda da margem de lucro dos empresários e reduzindo a competitividade dos produtos internos, além de aquecer a demanda interna do país acima do normal.

Gráfico 4

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Fonte: IBGE – Produção Física: Índice Base Fixa 2002=100- Horas Pagas: Índice base Fixa 2001=100 – Elaboração própria

Gráfico 5

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Fonte: IBGE – Produção Física: Índice Base Fixa 2002=100- Horas Pagas: Índice base Fixa 2001=100 – Elaboração própria

Um interessante fato observado é como o emprego se mantém constante ao mesmo passo em que a produtividade média e a Produção Física estão em queda. Esse fato é um dos objetivos do governo ao tentar estimular a demanda através do consumo, no entanto, há chance de choque inflacionário. Contudo, não podemos ser tão otimistas em relação ao emprego, pois os níveis observados no segundo trimestre de 2012 são menores que o do mesmo período do ano anterior, mas ainda estão em patamar desejável.

O emprego na indústria na passagem do primeiro para o segundo trimestre desse ano, registrou uma queda de 6%, valor considerável frente aos resultados anteriores mais próximos. No entanto, ao longo do trimestre recuperou-se com taxas de 1% (Maio) e 3% (Junho), mas não suficientes para retornar ao nível antes estabelecido no final do trimestre anterior. Vale ressaltar que mesmo com o desempenho ruim da produção, o emprego manteve desempenho considerável, contribuindo para manter o nível de atividade da economia estável. A manobra usada para contornar a perda constante da participação da indústria no PIB é de manter a economia aquecida pelo consumo.

Gráfico 6

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Fonte: CNI – Elaboração própria

Como já mencionado as horas trabalhadas, que acompanham as horas pagas, têm oscilado em torno de uma média que tem se reduzido gradativamente. Essa constância evidencia a perda de produtividade da indústria doméstica. Tratando especificamente do segundo trimestre, os 2 primeiros meses tiveram queda de 0,6 (Março) e 1,3 (Abril), contudo, em Maio houve um desempenho surpreendente variando positivamente na magnitude de 1,8.

Gráfico 7

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Fonte: CNI – Elaboração própria

Nas informações do mercado externo, tanto as exportações quanto as importações em seu índice quantum apresentaram no mês de Junho retração em, praticamente, todas as categorias de uso. No entanto, deve-se lembrar de que o mês imediatamente anterior, referente a maio, obteve aumentos em todas as categorias, sem exceções. A única categoria que não caiu em junho foram a dos Bens de Capital que, na verdade, ficou constante.

Muito dessa queda na quantidade exportada pode ser atribuída à ainda iminente crise nos países da Europa e alguns do MERCOSUL como, por exemplo, a Argentina. Mesmo esses países estando perdendo espaço na pauta de exportação do Brasil, ainda têm parcela considerável.

Nas importações, destaca-se a queda nos bens de consumo duráveis e também os Bens de Capital. Esses tipos de bens são os que têm maior participação nas importações e destacam a necessidade do Brasil de importar produtos de média-alta tecnologia. Ressaltando que esse fato não é recente e perpetua-se esse problema crônico ao longo da história do Brasil. Percebe-se que os Bens de Capital são os que menos oscilam na série histórica e, portanto, que sempre apresentam uma demanda semelhante. (gráficos 10 e 11 abaixo)

Gráfico 8

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Fonte: FUNCEX – Índice Base fixa 2006=100 – Elaboração própria

Gráfico 9

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Fonte: FUNCEX – Índice Base fixa 2006=100 – Elaboração própria

Os donos da crise

 André Luís Teles de Menezes Salomão e 

Luhan Reigoto Martins 

“Our public credit is good, but the abundance of paper has produced a spirit of gambling in the funds, which has laid up our ships at the wharves as too slow instruments of profit, and has even disarmed the hand of the tailor of his needle and thimble. They say the evil will cure itself. I wish it may; but I have rarely seen a gamester cured, even by the disasters of his vocation.” Thomas Jefferson, Letter to Gouverneur Morris, 1791

A nova e auto-proclamada “crise do capital mundial” experimentada pelos agentes econômicos a partir de 2007/08 ainda encontra, após quatro anos de deflagração, alguma dificuldade de ser colocada em seus termos fundamentais. Mais importante, restam aspectos demasiadamente contraditórios na exposição corriqueira das suas ulteriores qualidades. E a citação de Thomas Jefferson não é inoportuna: como o eixo crítico, a abundante financeirização urge confrontos teóricos sobre sua função e contrapartidas.

Sobre os mecanismos pelos quais se dispersou a suposta crise do capital foram exaustas explanações atrás de explanações, fornecendo inequivocamente um contexto vulgar de espoleta e inflamação. É do conhecimento do mundo mineral: empréstimos fartos e de alto risco, com níveis de alavancagem soberbos e uma ampla rede financeirizada de hipotecas, transacionadas em estimas duvidosas de avaliadoras comprometidas; seguros astronomicamente instáveis, arrolados em instrumentos de liquidez desregulados (derivarivos). O contágio fica por conta do volume de papel negociado a toque de caixa, sabendo-se dos perigos implícitos, apodrecidos no estômago do sistema financeiro mundial. Posteriormente, os mesmos papéis seriam contornados, na bacia das almas, para os cofres públicos, migrando também as adversidades de sua degenerescência. Isto, no entanto, não cobre o conteúdo qualitativo que demanda uma crise do capital.

O sociólogo James Petras discorda veementemente destes termos. Para ele, “uma verdadeira crise capitalista afetaria negativamente as margens de lucro, os ganhos brutos e o acúmulo de ‘pilhas de dinheiro’”. Movendo-se em direção oposta, as tais profit margins dos S&P 500 (índice das 500 ações mais importantes no mercado) saltaram de 6% para 9% do PIB norte-americano desde 2008, semelhante pulo encontrado apenas distantes três gerações anteriores!  Símbolo das intempéries da crise, a General Motors auferiu nada mais nada menos que U$ 7,6 bilhões em 2011, superando o último recorde de U$ 6,7 bilhões estabelecido em 1997. Portanto, antes da associação indevida dos termos, é necessário dispor melhor dos dados.

Outra contradição pode ser observada nas expectativas de movimentos sociais amplos. A suposição de uma frente irascível e combativa, relegada de empregabilidade, parece converter o todo num abstrato inócuo.  Por certo, as taxas de desempregos em países como a Espanha (23,6%), Grécia (21,0%) e Portugal (15,0%) são alarmantes, mas descompassadas com as que se verificam no norte da Europa, como Alemanha (5,7%), Holanda (4,9%), Áustria (4,2%) e até a Finlândia (7,4%), uma das pérolas da crise, navegando em relativo céu de brigadeiro. Brasil e EUA não ficam atrás, registrando 6,0% (média em 2011) e 8,2% (patamar registrado em março) respectivamente. Desta forma, fica comprometido o discurso sobre a inevitável difusão de fenômenos como o Occupy Wall Street em escala e magnitude semelhantes às manifestações gregas, portuguesas e espanholas. Entretanto, é temerário advogar assertivamente contra, levando-se em consideração que a taxa de desemprego aumentou em 18 países membros da UE, em contraste com a queda em apenas 8 membros.

A partir daqui, é possível, com alguma razoabilidade, afastar a hipótese de uma crise tanto do capital quanto em afecção generalizada. Em cortes mais realísticos, a crise pode ser encontrada na fragilidade dos países do sul europeu e na recalcitrante perda de liquidez do sistema financeiro da região do euro. Mas isto, de todo modo, não explica como “magicamente” as taxas de lucro retomaram seus patamares mais louváveis. Na zona europeia, é fácil deduzir que a instabilidade de uns reforçou polos hegemônicos pré-existentes. A Alemanha, mais que incólume, registrou um superávit comercial de $ 158 bilhões de euros, depois de marcar $ 155 bilhões no ano anterior.  Enquanto na potência germânica trabalhadores requerem 6% de reajuste salarial, gregos têm de arcar com um corte de 20% nos salários em acordo com o programa austero recém-implantado. E quanto aos EUA? Onde estão as consequências norte-americanas?

Se não pôde ser visualizada através das taxas de desemprego – desconsiderando provisoriamente as inúmeras críticas metodológicas na composição do dado –, a crise emerge na deterioração do trabalho e da classe média. Este, evidentemente, não é apenas um fenômeno grego. Em 2011, a economia estadunidense cresceu 1,7%, enquanto o salário médio caiu 2,7%.  Muito do supracitado lucro obtido pela GM advém do congelamento dos fundos de pensão e a extração de maior produtividade de menos trabalhadores, inclusa a oportuna barganha de novos contratos com cortes nos salários-hora. Em 2010, 93% dos ganhos adicionais de produto em relação ao ano anterior – U$ 288 bilhões – foram ao 1% dos contribuintes com renda de pelo menos U$ 352,000, um aumento de 11,6% dos seus respectivos pagamentos anuais. Esmiuçando, verifica-se que destes ganhos adicionais no ano de 2010 37% foram a 0,01% de contribuintes com renda média de U$23,8 milhões. Em perspectiva, a mobilidade social entre gerações no país é uma das mais baixas da história, desbancada por países como a Alemanha, Dinamarca e Finlândia.

Por final, retome-se à reflexão do falecido presidente: o crédito, como fonte primeira desta crise que aporta com intensidade, sem cadafalsos qualitativos, nos países periféricos europeus e nos EUA, é simultaneamente dádiva e maldição. Há muito, numa Alemanha bismarckiana, o crédito era parte da “santa trindade” articulada entre governo, banco e indústria, com vistas ao planejamento. Canalizava-se, portanto, em função do desenvolvimento econômico e tinha como contrapartidas somente os ganhos auferidos de investimentos produtivos. Muito ao contrário dos empréstimos “improdutivos”, praticados correntemente, em que se cobra de fontes externas: Governos pagam com a receita, trabalhadores com suas rendas ou qualquer ativo que possam empenhar à dívida. Esta dicotomia foi resolvida na Primeira Grande Guerra, segundo o economista Michael Hudson, onde prevaleceu a histórica hegemonia política inglesa e norte-americana sobre a pleiteante alemã, não obstante os magníficos resultados produzidos.

Se a Alemanha situa-se algo distante daquela realidade, mais próxima está se comparada a seus coirmãos desenvolvidos. O tipo de crédito praticado nos EUA e em países montados em dívidas soberanas é o grande algoz do desenvolvimento e recuperação em seus termos socioeconômicos. O pagamento soez das dívidas de empréstimos “improdutivos” parece carrear consigo um prolongamento recessivo, diminuindo consumo e investimento – recentemente, as bolsas reagiram negativamente à notícia de que o crescimento dos bens-duráveis nos EUA ficou bem abaixo do esperado. Mais longa aparenta ser a caminhada dos que, inadvertidamente, conduzem a toda sorte de bênçãos os seus mais torpes apostadores. Neste conflito, os bancos sairão ganhando; consequentemente, o capital.

Nota

“Como parte integrante da Agenda Acadêmica, nós do PET-Economia conjuntamente com o PET-Geografia realizamos duas atividades em torno da temática “Megaeventos e Remoções: Cidade para Quem?”.

 
No dia 17/10 ocorreu uma mesa redonda que contou com a presença das professoras da Escola de Arquitetura e Urbanismo da UFF, Fernanda Sánchez e Regina Bienenstein, com Marcelo Braga, da Central de Movimentos Populares e Comitê Popular Copa e Olimpíadas, e Larissa Pirchiner, advogada e participante das Brigadas Populares.
 
Com o auditório Florestan Fernandes cheio, o debate se desenrolou com sucesso e sem maiores contratempos. Sob o olhar atento do público foi exposto tanto a produção e contribuição acadêmica quanto o que vem sendo feito pelos militantes dos movimentos sociais, para informar e agregar a população nesse contexto da preparação das cidades para a preparação dos Jogos Olímpicos e Copa do Mundo.
 
No dia seguinte, 18/10, foi realizado o Show do PET, uma atividade que reuniu alunos de ensino médio do CEFET-Maria da Graça e pré-vestibulandos do Pré-Comunitário Reação, que funciona na UFF. A dinâmica, inspirada no Show do Milhão, é um jogo de perguntas e respostas, que após apresentadas pela mesa eram respondidas pelos alunos, que estavam separadas em grupos e sendo auxiliados por petianos. Contamos com a presença do professor Gerônimo, da Escola de Arquitetura e Urbanismo da UFF e mais uma vez da Larissa Pirchiner.
 
Simbolicamente, premiando um grupo vencedor com pen-drivers, acreditamos que todos saíram ganhando, alunos, professores e petianos, com o debate e a troca de informações.”

” Agenda Acadêmica 2012 “

Show do Pet! (18/10/2012)

Show do Pet! (18/10/2012)

Mais um evento conjunto entre o Pet Economia e o Pet Geografia da UFF na agenda acadêmica 2012.

Realizado no Auditório Moacyr de Carvalho Gama, na Faculdade de Economia, o ‘Show do Pet’ é um jogo de perguntas e respostas feito com Estudantes de ensino médio e prevestibular.

E, cá pra nós, a edição 2012 foi um sucesso!

As respostas foram orientadas e justificadas pelo professor Gerônimo do Instituto Arquitetura e Urbanismo da UFF e pela advogada Larissa.

Obrigado aos realizadores e participantes do evento!

Até o próximo!

Nota

O PET- Economia e PET-Geografia convida-os a participar da mesa redonda:

“Megaeventos e Remoções: Cidade para Quem?”.

No momento em que o Rio de Janeiro se prepara para sediar a Copa do Mundo e as Olimpíadas as ações contraditórias do Estado, com o direito de moradia garantido pela constituição, têm levado a práticas de violência e arbitrariedade nas remoções das populações mais pobres.
Dentro de um debate que hoje pulsa em todo o país traremos para à reflexão a questão do “terror imobiliário” provocado por ações que ao atender às demandas desses eventos se põem acima dos interesses da população residente, entre eles: a violência e arbitrariedade do Estado no processo de remoções, desrespeitando os direitos humanos; a contraposição do direito constitucional de moradia e o direito relativo de propriedade do solo; a ausência de planos diretores garantidores do ordenamento territorial beneficente à toda população da cidade; e como o direito à moradia torna-se um privilégio através das ações do mercado imobiliário.
Para compor a mesa contaremos com a presença de:
  • –  Fernanda Sánchez – Escola de Arquitetura e  Urbanismo – UFF;
  • –  Regina Bienenstein – Escola de Arquitetura e Urbanismo – UFF;
  • –  Marcelo Braga – Central de Movimentos Populares e Comitê Popular Copa e Olimpíadas;
  • – Larissa – Advogada – Brigadas Populares.
O evento que ocorrerá durante a Agenda Acadêmica faz parte da Mostra PET. Será realizado dia 17/10/2012 no Auditório Florestan Fernandes, que fica no Bloco D do campus Gragoatá, com início às 14 horas.”

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“Megaeventos e Remoções: Cidade para Quem?”

Indústria da Beleza

 Clara Bizzo e
Talita Moutinho

“A beleza é a melhor carta de recomendação.” Impreciso ou não, Aristóteles não imaginava que sua frase pudesse ter tanto efeito na economia. Pesquisas empíricas feitas nos EUA, na década de 70, mostraram que a beleza influencia no mercado de trabalho, e também que ela tem relação com o sucesso econômico individual. O resultado foi um impacto positivo da aparência do trabalhador em seus rendimentos. Na década seguinte à pesquisa realizada, foi analisado que esses fatores também começaram a afetar o Brasil, onde a indústria de cosméticos crescia e ganhava cada vez mais espaço.

Segundo Hamermesh¹, existe segregação salarial relativa ao aspecto do indivíduo, onde pessoas de boa aparência ganham mais do que pessoas de aparência simples. Uma análise mais profunda mostra que há, na verdade, uma penalização pela ausência de beleza 5% a 10% maior do que o prêmio por esta, tornando assim este um fator cotidiano essencial para profissionais. Isso se verifica tanto para homens quanto para mulheres.

Com a ampliação da importância dada à aparência física, constatou-se um aumento da demanda de serviços de estética e higiene pessoal. Aliada a esse fato, a entrada cada vez maior das mulheres no mercado de trabalho fez com que a indústria da beleza tivesse um crescimento nunca visto antes.

A exigência de uma boa feição implica no consumo de serviços e produtos que movem grandes volumes de capitais. Diante disso, as indústrias de cosméticos e perfumaria concretizam admiráveis investimentos. Também se deve levar em conta, a importância que as culturas têm dado à beleza e a autoridade da moda na decisão do consumo.

As mudanças consequentes da maior valorização do aspecto físico pessoal podem ser observadas através do desaparecimento de barbearias e o maior número de salões unissex e centros de estética. Observou-se que as barbearias, limitadas a cortes de cabelo, estão dando lugar aos centros de estéticas, onde se realizam inúmeros procedimentos: cortes de cabelo, manicures, pedicures, depilação, massagens. Além disso, é notável a expansão de empresas brasileiras como a Natura que possuía 285.000 consultoras, no ano 2000, de acordo com a ABEVD (Associação Brasileira de Empresas de Vendas Diretas) e a O Boticário com mais de 2.270 lojas no Brasil.

 

Para sustentar a nova demanda pelos produtos de cosméticos e serviços estéticos houve necessidade de empregar mais mão de obra e os profissionais da área tiveram que se atualizar adequando-se ao ritmo e as exigências dos consumidores. A absorção de mão de obra nesses setores exige pouca qualificação para o exercício das tarefas. Porém isso não é uma característica exclusiva do segmento, é na verdade, uma constante da força de trabalho brasileira. Os profissionais que compõem a indústria da beleza possuem um rendimento baixo, mas que vem crescendo aos poucos. Muitos trabalham por conta própria e outros trabalham para complementação de renda, nesse caso, há grande participação de pessoas mais velhas.

 

O Brasil ocupa no ranking internacional uma elavada colocação no número de mercados deste setor. Ele se encontra na sexta posição como maior mercador consumidor de produtos higiene pessoal, perfumaria e cosméticos, com um comércio avaliado em US$ 8,5 bilhões, segunda pesquisas da Abiphec de 2000. Adotando alguns produtos, percebemos que o Brasil é o terceiro maior consumidor de fraldas descartáveis, absorventes e desodorantes; quarto em higiene oral, produtos para cabelo, produtos infantis e perfumaria; sexto em produtos para banho; sétimo em produtos masculinos; oitavo em maquilagem e protetor solar; e nono em produtos para pele. De acordo com esse quadro, as empresas internacionais expandem gradualmente atividades produtivas e comerciais na economia brasileira.

 

Analisando as trocas internacionais destes produtos, o Brasil não possui participação significativa nos principais mercados mundiais. O principal destino das vendas externas brasileiras, vão para a Argentina, que responde por quase 20% das exportações totais. Já pelo lado das importações, o Brasil opta por comprar dos países desenvolvidos. Dos cinco principais vendedores de produtos cosméticos, quatro são desenvolvidos, sendo os EUA com 21,6%, a França com 19,2%, a Alemanha com 12,7% e a Suíça com 5%. A Argentina, apresenta 15,5% das importações brasileiras.

 

Pode-se concluir que a aparência física e o domínio da moda ganham cada vez mais peso nas relações sociais e econômicas.  Se isso representa melhora ou piora nas relações, deve ser analisado com cuidado. O fato é que  as atividades  aparentemente simples impulsionam o setor industrial (material elétrico, perfumaria, cosméticos) e serviços de engenharia, arquitetura, acessoria financeira e comércio. E por fim, passam a ser essenciais na vida das pessoas.

 

¹Professor da Universidade do Texas em Austin e pesquisador no Departamento Nacional de Pesquisa Econômica.

 

Bibliografia:

 

por PET-Economia/UFF Publicado em Resenhas